sobre a história humana do cavalo de turim

O cavalo suporta o mundo

em mudo preto-e-branco

naquela casa entregue

aos quatro elementos

Expostos ao olhar – pai e

filha encenam o rito

que lhes resta de humano

Não se rendem às lágrimas

que o filósofo derramou

ao ver espancado o cavalo

na rua dos homens sem amor

Enlouqueceu ao atestar

a catástrofe já instalada

como lento fade-out

dos rostos em pedra

A chegada do fim foi

a progressiva mineralização

das funções orgânicas

que o cavalo perdera

há muito sob o açoite

da rotina que também

domesticou pai e filha

a ciência da terra profunda

Um cheiro escapa do destilador

em segundos invade o galpão

É o aroma da jurema-de-oeiras

entre os morros da Chapada

e a capoeira da caatinga

Na poda matutina das folhas

redivivas em duas semanas

não se arranca ramos ou galhos

Suas folhas são feitas com a dimetil-

triptamina liberada ao nascermos

morrermos sonharmos nos extasiarmos

Todos sabem seu poder de cura

por transe e invocação

de ancestrais e caboclos

Na alquimia dos óleos essenciais

a dimetil não evapora – telúrica

a mais justa propriedade da planta

o sangue que flui nas folhas

e nos faz quase-vivos

quase-mortos quase-outros quase-nós

Bebido por pajés o vinho de jurema

tem força imunoestimulante

cuida de inflamações ansiedades

e agora ancestral ensina à ciência

sua sabedoria da terra profunda