um poema de sony labou tansi

SONY LABOU TANSI

[trad. sandro ornellas]

Sou mestre
Na arte de fechar
Os olhos

Sou mestre também
Na arte de virar
As páginas assim
Como virar
As costas

Sou mastro
Na arte de ranger os dentes
E quando se trata
De amar a terra

Ponho
O coração de todos os ventos
Para amar sim a terra
Eu me torno monção

Mas tomem agora
E comam
Este é meu medo
De abandonar o mundo

***

Je suis le maître
Dans l’art de fermer
Les yeux

Je suis le maître aussi
Dans l’art de tourner
Les pages ainsi
Qu’on tourne
Le dos

Je suis le mât
Dans l’art de frapper les dents
Et quand il s’agit
D’aimer la terre

Je chausse
Le cœur de tous les vents
Oui pour aimer la terre
Je fais comme la mousson

Mais déjà
Prenez et mangez
Ceci est ma peur
De quitter le monde 

videoensaio sobre herberto helder

O pensamento da desconstrução se caracteriza por conduzir sua análise à aporia, capturando paradoxos e limites na lógica daquilo que se deseja desconstruir. Até porque desconstruir o tal do logocentrismo, valendo-se do mesmo logos, é brincar de desfazer o que não se desfaz, já que a desconstrução não é nem nunca foi uma teoria crítica. Ela recusa nietzscheanamente a dialética negativa. No máximo, Derrida se rendeu ao mais heterodoxo e marginal dos frankfurtianos: Walter Benjamin.

Esse giro em falso pela aporia no pensamento da desconstrução resultou em muitos dos impasses que hoje vivemos no terreno da ética e da política (não a conjuntural, mas a civilizacional, a “grande política”).

Daí que tenho pensado em como desenvolver vídeos que sejam em alguma medida reflexões sobre textos literários. E por vídeo não falo em narrativas documentais ou ficcionais, mas ensaios videográficos. De um lado, a palavra escrita foi capturada pela discursividade pragmática do neoliberalismo, fazendo dela valor financeiro (sobredeterminando seu valor cultural e político). De outro lado, a imagem tem uma concretude e imediatidade às quais as pessoas se rendem mais facilmente sem recorrer, num primeiro momento, ao logos.

Mas ao memso tempo isso talvez só seja possível se o texto que se videografa também seja resistente à paráfrase e à captura discursivo-pragmática. Daí Herberto Helder vir muito bem à propósito, penso eu, na tentativa abaixo, feita a quatro mãos com Maruzia Dultra e com a trilha de George Christian.

O texto de Helder é “(memória, montagem)”, hoje no livro Photomaton & vox, e associamos quatro frases escritas em momentos diversos do texto, mas evidentemente relacionadas entre si e ao poema, o que permite pensar pelo vídeo o que é a palavra escrita no poema em geral, e não apenas no poema herbertiano. No final das contas, o vídeo é uma leitura que corta, monta e comenta por imagens passagens de Helder.