transição democrática e grão de esperança

Sinto-me jogando em campo desde 1984, quando aos 13 anos acompanhava de casa, via televisão, a campanha das Diretas Já! e a votação perdedora da Emenda Dante de Oliveira, pelo voto direto para presidente. No início de 1985, vi minha tia em casa chorando com a notícia da morte de Tancredo Neves, enquanto minha mãe foi dormir cedo. A partir daí, nunca mais deixei de acompanhar e me informar quanto ao país.

Foram: a primeira eleição para governador da Bahia, a Constituinte, a primeira eleição para presidente, os inúmeros planos econômicos, as urgentes trocas de moedas, o sobe e desce vertiginoso da inflação e dos preços no supermercado, a fome e o desemprego crônicos, a chegada e crescimento da AIDS, as promessas de campanha, as permanentes denúncias de corrupção, o sequestro da poupança e o impeachment de Collor, o Plano Real e a inédita estabilidade econômica, as privatizações e denúncias de mais corrupção, as crises internacionais e seus violentos reflexos no país, a chegada da internet, a eterna candidatura de Lula e sua sonhada eleição, toda a esperança do mundo, o pragmatismo político e as contradições discursivas, mais promessas e mais decepções, outra crise internacional, mas com um surpreendente boom econômico, mais esperança natimorta e mais melancolia cotidiana, aceleração coletiva e depressão pessoal, Jornadas de Junho e ainda mais decepções, 7 X 1 e mais corrupção, delírio, loucura e mitomania compartilhadas, falta de ética compartilhada, urgências, desesperos e emburrecimentos compartilhados, desejo de poder pelo poder compartilhado, mau-caratismo compartilhado, racismo assumido, civilidade banida, bom senso intencionalmente guardado, salvadores divididos entre guerreiros e mitos, desesperança com as seletividades, mais urgências, mais desesperos e emburrecimentos compartilhados, violências diversas aumentando, a institucionalização de tudo isso em 2018, a luta pela sobrevivência subjetiva, a chegada do Coronavírus e da quarentena.

Eu poderia listar agora onde eu estava e como vivia ao longo desses 36 anos. O que fazia em paralelo acordo ou desacordo com a enumeração acima. Mas cansei do excessivo narcisismo que hoje se traveste inapropriadamente como se fosse personal is political e lugar de fala. O pessoal só é político se ocorrer na esfera micropolítica. E toda institucionalização de uma micropolítica cheira cada vez mais a mercantilização da vida e/ou fascismo discursivo e institucional, como demonstra a lógica punitivista em que caímos e tomou o discurso público pelo menos nos últimos 15 anos. Por isso, a única experiência pessoal em que me deterei aqui diz respeito à eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Na noite de domingo, quando o resultado mostrou sua vitória, após uma campanha doentia em todas as direções e sentidos, não saiam da minha cabeça a melodia e os versos da canção da Legião Urbana, “Tempo perdido”: “Todos os dias quando acordo, / não tenho mais o tempo que passou, / mas tenho muito tempo. / Temos todo o tempo do mundo. / […] / Somos tão jovens”. Mandei naquela mesma noite a música por Whatsapp para alguns amigos e alunos. Naqueles meses, vinha escrevendo um texto para ser lido num evento sobre música. Havia sugerido escrever sobre a banda Legião Urbana, pois cresci ouvindo-a, lendo Renato Russo falar em entrevistas de Truffaut e de outing, enquanto cantava sobre Bandeira e Rimbaud e musicava Camões. Para um adolescente, foi uma introdução pop ao que posteriormente eu escolheria como profissão e modo de vida. No artigo, desenvolvi um argumento que sempre tive em mente, o de que a minha geração era melancólica por haver amadurecido espremida entre uma geração que lutou contra a ditadura e outra, que cresceu na estabilidade pós-Real. As canções de Renato me permitiam desenvolver isso: uma geração que cresce na transição democrática entre hiperinflação, pobreza, liberdade cultural, esperança, AIDS e sucessivas frustrações. Minha conclusão no artigo é que a eleição de Bolsonaro só evidenciava o quanto a transição democrática ainda não havia acabado e que todos os governos desde José Sarney foram incapazes em investir no fundamental para o país se estruturar. Sempre houve urgências a combater, mas os problemas fundamentais jamais foram cuidados. O país caminhou sob todos os governos a passos de tartaruga e sob lógica mascarada no tratamento de nossas grandes questões. O resultado disso é a completa indigência política atual, representada com louvor por nosso presidente.

Agora, chegamos a 2020 com desafios inéditos. E de novo urgentes. Mas com as grandes questões de sempre. Intocadas. Questões que passaram todas essas décadas sob nossos olhos e nunca foram verdadeiramente cuidadas. Com exceção do incapaz que nos governa em Brasília, é sintomática a mobilização de prefeitos e governadores diante da ameaça pandêmica. Todos eles sabem muito bem que administram estados e cidades cuja insalubridade é altíssima em função do péssimo saneamento básico. São enormes as regiões urbanas sem água tratada, esgotamento sanitário, iluminação, calçamento e infraestrutura básica. Nada jamais priorizado por sucessivos governos de partidos diferentes. Eu poderia falar também do sistema médico-hospitalar – louvado agora, mas ainda cheio de problemas decorrentes da questão sanitária.

Isso de um lado, pois de outro está a educação, que já ganhou as cores sombrias da sua retumbante falência. Professores deprimidos, alunos educados pela indústria cultural e midiática e pais competitivos ou fracassados não são capazes de garantir qualquer cultura educacional digna e eficiente. O que faz do ambiente escolar no Brasil algo nefasto. Nossos governantes jamais se interessaram em criar um verdadeiro sistema de ensino e educação, jamais tentaram um verdadeiro pacto para além das promessas e rapapés, para além de intermináveis reuniões e propostas sobre currículos e metodologias. Foram incapazes de criar consensos mínimos fora da corrupção e negociata. A educação jamais foi prioridade em qualquer governo da nossa interminável transição democrática. O absurdo movimento antivacina, junto com o risível terraplanismo, é apenas a face estereotipada disso tudo. O anti-intelectualismo dos ideólogos e governantes bolsonaristas é apenas a mais estapafúrdia e visível manifestação de como nossos políticos e partidos sempre quiseram controlar, ordenar, censurar e desacreditar o que se diz em sala de aula. Isso quando não desejam entregar o ensino nas mãos do mercado.

Tenho, portanto, pensado muito na lúgubre e única oportunidade que hoje os políticos têm às mãos, com a COVID-19. Não é uma catástrofe bélica, provocada pelos malvados norte-americanos contra os malvados norte-coreanos ou iranianos. Não é uma catástrofe primeiramente financeira, causada pela desmedida ambição de megainvestidores no cassino das bolsas. Não é uma catástrofe ambiental cujos efeitos são mais lentos e só serão vividos por nossos filhos e netos. É tudo isso ao mesmo tempo, embora causado por um agente 100% natural. O vírus põe a nu as históricas arrogâncias e as dissimuladas vergonhas de todos nós. Mais ainda: escancara nossas vulnerabilidades como coletividade social no Brasil. Fala-se muito em educação científica e da diminuição dos investimentos em ciência nos últimos seis anos, ao longo dos três últimos governos. Verdade verdadeira. Mas pouco se fala que isso começa na mais simples infância escolar e toda a desinformação e loucura que percebemos é resultado disso: falta de investimento sério em saúde sanitária e educação pública em primeiríssimo lugar. Isso sim seria valorizar a ciência no Brasil. Fora das urgências e perto das grandes questões nacionais.

Por isso, assim que a pandemia for controlada, minimamente controlada, ou priorizamos essas dívidas históricas da nossa sociedade, ou nos arriscamos seriamente a jamais escaparmos do círculo vicioso da transição democrática, no qual estamos há 35 anos e nos jogou nos braços do bolsonarismo. O vírus é, infelizmente, nosso último e radical grão de esperança.

desinstalar a ansiedade

Nas últimas semanas, li dois livros para um curso que darei sobre Aceleração Social e Tristeza na Literatura Portuguesa e de repente fiquei com vontade de desinstalar meu Whatsapp. Ainda não me senti capaz de desativar a conta, mas mesmo assim quero compartilhar algumas impressões, meramente subjetivas, mas para mim reveladoras nessa desinstalação.
Trocando emails com minha irmã e com uma amiga, percebi que, quando as pessoas escrevem por email, a mensagem parece vagarosa e detalhada, mesmo que por celular (o que é péssimo, pelo corretor-errador). Mas a vontade de se comunicar com mais exatidão e cuidado (com o escrito e com o outro, o interlocutor) parece estar presente. Talvez pela formalidade que o email adquiriu. De qualquer modo, a comunicação via Whatsapp sempre me exaspera e, diante da paz que sinto com o email, deduzo que não só por serem frases entrecortadas, simulando por escrito uma oralidade ansiosa, mas principalmente por subentenderem solicitar resposta quase imediata.
Não sou capaz de ligar e desligar minha relação com o Whatsapp sem desintalá-lo. Tirei as notificações desde o início do uso, mas adquiri como que uma compulsão não só de ver se alguém me enviou alguma mensagem, mas de responder na hora – mesmo que seja apenas para dizer que responderei outra hora. Com o email, leio e não me sinto obrigado a responder imediatamente. Ao contrário, guardo e medito com calma a resposta para o dia seguinte ou para mais tarde, que seja. O que é ótimo e libertador. E acho dizer muito sobre as redes (de comunicação) sociais e os afetos agressivamente acelerados que ganharam o espaço público em todo o mundo.
Depois, acho que escreverei mais sobre isso. Talvez. Sem pressa.