Édipo e a Esfinge, de Francis Bacon
…
simultaneamente entramos & subimos
escadas vivas como o ar
que respiramos &
nos enche com sua presença sem peso.
no corredor nos esbarramos & caímos
nas pedras do chão.
encontros assim deixam cicatrizes
que levamos nos ombros & a barba por fazer.
alguns fugiriam da colisão, outros
construiriam uma memória do choque.
escolho o traço, a linha, a cor,
para olhos & mãos inquietas com a beleza.
a vida é sem par & com chaves enfiadas
nas fechaduras das portas.
abertas – no entanto – às partituras do improviso,
aos tropeços & desvios do ritmo.
…
Cansado de literatura, furto
a mais íntima jóia da escritura:
o sublime instante de gozo & morte,
o luto & a alegria do risco sem mote.
…
Saudades sem tristeza daquele tempo.
Alegria por tê-lo vivido &, ao mesmo tempo, findo.
Deve ele permanecer só na lembrança. Estátua de gesso
de que cuidava em criança, para não a quebrar com medo
aos meus pés. Eu em seus pés. Mil promessas.
Tudo não passa disso: assim: perfeito tanto quanto pode.
Um verso de ecos apenas para o poema se armar
entre desvãos mal alinhados & linhas indevidas.
Isso inspira pela vida afora. Determina escolhas.
Orienta desejos. Regula dores silenciosas.
Temos o ouro como marca de família. Temos o ouro
tatuado na pele – metal leve – como herança.
Mas o recebemos bruto & com outro nome.
A tarefa de limá-lo solicita à disciplina & à beleza.
…
Já a deixei, mas nunca a deixo.
É assim que levo Brasília no peito.
As escolhas afetivas que fazemos.
Há professores sempre onde há amigos.
Chegara o abismo. Um modo de decisão.
A realidade é esse tempo enorme,
gozo instantâneo fora de esplanadas,
dentro de sonares, satélites & superquadras.
Ainda não havia Pedro, eletricidade nos cabelos,
nem Irena, brilho nos espelhos
que desde esse tempo, tão presente & remoto,
me invadem com insinuações de morte.
Ainda há o Valdo, assinando outro,
a Marisa e seu afeto maduro.
Ainda há mais no espírito das praças
que levaram meu corpo à alegria presente.

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