Com autorização do jornalista Israel Risan, reproduzo a entrevista que dei para ele por email, sobre COLECIONADOR DE OSSOS seguido de ODE FLORESTAL, e que virou a reportagem publicada em ATARDE.
1 – Seu novo livro aborda a desorientação subjetiva e a vertigem coletiva. Como você traduz esses temas em seus poemas e quais momentos da nossa realidade recente mais te impactaram durante o processo criativo?
R. A desorientação e a vertigem, mais do que temas, estão no esforço, sempre muito difícil, de dizer exatamente o que se passa. Quem está desorientado e em vertigem perde o rumo certo. Mas como a poesia é via de regra um tipo de experiência com a língua, sei que a ausência de pontuação em vários momentos dos poemas cria ambiguidades e uma sintaxe que querem, de certa forma, “traduzir” a desorientação. Ao mesmo tempo, as imagens, os ritmos, a versificação irregular e certas ideias aqui e acolá tentam dar o tom da vertigem. Já sobre os momentos que me impactaram, todo o processo nacional de catástrofes que pareciam se abater sobre o país (Mariana e Brumadinho, por exemplo), mas que continuam com as recentes enchentes na Bahia e no RS, tiveram no incêndio do Museu Nacional o simbolismo máximo de um país destroçado e sem rumo.
2 – Em “Digital Clipping”, você revisita o automatismo das manchetes e notícias. De que forma esse fenômeno da hiperconectividade influenciou seu trabalho?
R. Nos temas da desorientação e da vertigem, por exemplo. Mas a ideia dessa série de três poemas foi ironizar esse fluxo de manchetes que guiam nosso imaginário contemporâneo para esse automatismo sentido nos poemas. Ao mesmo tempo, as epígrafes de Andy Warhol, Radiohead e Kraftwerk tentam sugerir a ironia.
3 – A pandemia também é um tema presente no livro, especialmente em relação ao luto. Como foi transformar esse sentimento coletivo em poesia, e como a pandemia afetou sua escrita?
R. Na verdade, acho que ainda não vivemos coletivamente o luto. É isso o que o poema “Exumação”, por exemplo, tenta mostrar: que os ossos ainda estão aí. Não foram enterrados. E foi na pandemia que entendi para valer que significa escrever poesia para mim, por mais que os temas e a linguagem sejam tensos, muitas vezes difíceis: é dar meu testemunho deste tempo de extremos que vivemos: seja na pandemia, seja na vertigem das informações, seja no ódio político-cultural, seja na catástrofe ambiental.
4 – “ODE FLORESTAL” é uma reinterpretação da “Ode Marítima” de Fernando Pessoa, certo? O que motivou essa escolha e como você trouxe a obra de Pessoa para o contexto contemporâneo?
R. Você chama de “reinterpretação”, eu chamo de “tradução”, mas literariamente pode ser entendido como uma paródia, sem o riso, só com a crítica. Originalmente, eu o definia como uma “tradução decolonial”, pois pega o imaginário das navegações portuguesas e as imagens do comércio marítimo, contidos no poema de Pessoa, e os atualiza para o imaginário e vocabulário contemporâneo da catástrofe ambiental e das novas tecnologias, tentando manter toda a estrutura do longo poema. Podiam ser muitos outros poemas, mas dei muito tempo aula sobre ele, por isso o conheço muito bem.
5 – A ironia e o lirismo parecem ser marcas fortes na sua poesia. Como você equilibra esses elementos para tratar de temas tão densos e complexos como a violência e a melancolia?
R. Isso não é pensado previamente. Eu na verdade acho que escrevo para tentar entender o que se passa, embora “sem perder a ternura”. Acontece que resulta em ironia e algum lirismo. Acho mesmo minha poesia pouco lírica e muito mais o que eu chamo de “poesia de pensamento”, o que casa com a ironia. Mas fico muito feliz com sua percepção do lirismo.
6 – A crítica social permeia muitos dos seus poemas. Qual é o papel da poesia em tempos de crise política e social? Você acredita que a poesia pode provocar mudanças?
R. Tenho uma tese (de boteco) de que em tempos de crise as pessoas recorrem muito à poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. É assim contemporaneamente e foi assim durante a ditadura militar, por exemplo. A poesia vem quando a vida é colocada em crise, e o papel dos poemas é sempre tentar dizer exatamente aquilo que não se sabe exatamente como dizer, como são as crises.
7 – “COLECIONADOR DE NADA seguido de ODE FLORESTAL” fecha um ciclo de cinco títulos lançados em seis anos. O que esse ciclo representa para você enquanto poeta?
R. Todos esses livros começaram a ser escritos antes da pandemia. Alguns, muito tempo antes. Um foi inclusive publicado em 2019. Mas eu não conseguia concluir nada, tudo estava desmembrado e sem sentido. Eu vivia um período quase crônico de depressão e um casamento falido. O Brasil, então, só piorava minha situação. Veio a pandemia, me separei e tive de me voltar para mim mesmo (quase como todo mundo) e me virar pelo avesso. Os livros foram fazendo sentido só a partir daí. Mas é um ciclo completamente involuntário, que só percebo hoje em dia.
8 – Com o fechamento desse ciclo, quais são os próximos passos na sua carreira literária? Você já tem novos projetos em mente?
R. Não tenho “carreira literária”. Minha profissão é a de professor de literatura. E gosto de pensar que escrever (seja o que for) faz parte dela. Mas ainda não tenho nada em mente, nem por escrito. Como aprendi com Waly Salomão, que dizia repetir Hélio Oiticica, agora é a hora de “suportar a vaziez”.