Escrevi o comentário abaixo depois da leitura da novela A MEDIDA DO ABANDONO, de Toni Araújo, publicada há pouco tempo pela Villa Olívia Livros.
A MEDIDA DO SEGREDO
A Medida do Abandono, de Toni Araújo, acabou de ser lançado pela coleção Mal Dita, da Villa Olívia Livros. A coleção pretende reler clássicos das fábulas e contos de fada. Toni, como revela ao final, escolhe a história de João e Maria para dar a “medida do abandono” de duas crianças pelos pais, mas ao mesmo tempo parte e desenvolve a história por outros e próprios caminhos. Antes de mais nada, fazendo jus à proposta da coleção editorial, sua história parece ser de certa forma uma homenagem à literatura, mais especificamente à contação de histórias. Toni escolhe contar pelo ângulo de um jovem jornalista, aquilo que chamam de “foca”. Ele se encontra feliz por ter sua reportagem publicada na primeira página do jornal. Ao chegar em um bar, depara-se com um misteriosos velho que o induz a transcrever à mão a história que lhe contará.
É nessa hora que Toni apresenta a seus leitores e a seu “foca”, medusado pelo velho contador de histórias, dois irmãos – um menino mais novo e uma adolescente – sozinhos após o desaparecimento misterioso do pai marceneiro. A mãe havia sido assassinada, o que conduziu o pai a uma progressiva decadência. O seu desaparecimento e a incerteza quanto ao futuro dos irmãos situa a história entre a periferia e o centro de uma grande cidade brasileira. A melhor parte é justamente quando acompanhamos o périplo de ambos depois de irem morar sob viadutos no centro da cidade. A história, que corria o risco de ser reduzida ao clichê melodramático, tão na moda, da batalha de dois órfãos pela sobrevivência, ganha tonalidades entre o conto gótico e o policial, sem necessariamente se tornar um “noir”.
O ponto culminante do enredo é a chegada dos irmãos à casa noturna A Poção, o encontro com a mulher de máscara e o que lá dentro ocorre: “Chegaram num quarto. Em penumbra, via-se uma grande cama e, no teto acima dela, um lustre de vidro em forma de crucifixo, pendurado de cabeça para baixo, que emitia uma luz rala. Não havia janelas nem porta na entrada. A menina se despiu, atirou-se na cama só de calcinha e dormiu profundamente”. Nada é explicado sobre essa casa, além de serem para lá levados por uma pista deixada pelo pai num bilhete. Lá dentro, Toni descreve estranhas cenas e sugestões de ritos sacrificiais, com os quais os irmãos acabam se envolvendo – até o desfecho da história, que na verdade continua em aberto, graças ao sagaz uso por Toni da técnica narrativa da mise-en-abîme.

A técnica é a de encaixar uma história dentro de outra história. Ela já foi devidamente apropriada pelo cinema e pelos quadrinhos e serve para fazer o leitor/espectador mergulhar fundo pela imaginação no enredo e, de repente, ser “acordado” de lá pela lembrança de que tudo não passa de uma história inventada dentro de outra história para a qual se retorna. Uma história, na verdade, acaba por comentar indiretamente a outra, numa espécie de jogo de espelhos narrativos, em que ângulos, pontos de vista, estilos e enredos se comentam mutuamente. Junto com isso, Toni ainda traz aqui e acolá bilhetes, papeis, desenhos, sinais e curtas narrativas que poderíamos entender como sinais literários pelo segredos e sugestões que parecem conter, conduzindo novela, colocando pulgas atrás da orelha do leitor e solicitando especulações diversas: tudo o que faz a literatura. Temos a máscara negra desenhada pelo pai no pedaço de papel deixado antes de desaparecer como um enigma, também a história contada aos irmãos pela mulher da casa noturna sobre como conhecera seus pais, e o outro e misterioso pedaço de papel deixado pelo velho contador da história sobre a mesa para o “foca”, e que resta inexplicado – como toda boa história.
No uso da técnica da mise-en-abîme, Toni talvez pudesse economizar um pouco mais nos retornos iniciais da novela ao presente da narrativa, com o velho dialogando com o “foca”, mas não é nada que afete o mergulho junto aos irmãos em busca do paradeiro de seu pai. Talvez ajudasse no “efeito rebote” ao final da novela, quando o leitor volta à mesa do bar. Algumas cenas poderiam também ser um pouco mais lentamente montadas, como naquela em que o sobrinho da locatária da casa que os irmãos alugam chega, instala-se e seduz a irmã. Sem dúvida, muito rapidamente contado. Mas trata-se de uma coleção editorial, com textos encomendados com curta dimensão. O enredo também pede velocidade. Não é uma história que poderia durar muito mais. E a agilidade na condução do enredo por Toni mostra boa articulação entre a narração de cenas e eventos e a descrição de ambientes e espaços, sempre com vistas à explorar a boa medida do segredo que faz da literatura sempre algo que pede enigma e surpresa. E que é justamente como acaba a novela, deixando na boca do leitor um gosto de incerteza e curiosidade.