Decidi, então, entrar no jogo,
sem perceber que nele já estava.
Meio reserva, assim, meio de lado.
Mal sabia o que significava
e como me sentiria. Você também
desconhecia as possibilidades
aqui, junto a mim. Instalamo-nos
numa espécie de aventura proibida.
Você nunca saberia a maneira exata
com que minhas mãos seguram
o que se passa entre nós.
Nem eu com as suas. Isso
me causa uma certa vertigem.
Nada sério. Apenas estimula
os sentidos, evita que entorpeçam
e caiam. É quando o pensamento
cai que o nosso corpo também cai.
Eu voltava para casa ao entardecer,
vinha do trabalho, pensei em
como minha sanidade
depende das minhas mãos
e em como estas dependem
de uma vontade que não
encontro em mim, mas em você,
em todo o seu corpo, cada músculo,
cada osso, cada poro, cada pêlo,
cada gesto e movimento que faz.
Essa foi a vertigem. Foi o que senti
na hora e me levou diretamente
ao chão. Nada sério. É só a minha
vida. Nada sério. E a sua, também.
É bom saber. Mas se ocorrer
disso ser descoberto por alguém
no momento exato em que pensamos?
Nessas horas, teremos que aprender
por nós mesmos a ser outra coisa,
outro alguém, ao menos temporaria-
mente. E não cair. Aprender a fingir.
Diários, poemas, ensaios, emails,
receitas de cozinha, cartas-bomba
ou cartas de suicida, contratos,
livros-caixa. Exagerado demais?
Quando se escreve coisas assim
não se sabe quem se é,
para quem se diz, nem o que se diz.
E o motivo já se perdeu. Talvez
nunca tenha existido realmente.
O próprio formato de dizer
demanda isso hoje em dia. Pois é.
Já falei da mania dos dedos?
Enquanto ouço falarem ou enquanto
o pensamento voa? É assim.
Um sapateado, metade visível
em minhas mãos, na ponta dos
dedos, metade invisível, pois eles
bailam sobre algo que lhes escapa,
mas que está ali inteiro: você.
Secretariam um outro e a mim mesmo.
É tudo o que fazem. Acho que sempre.
O mundo se concentra todo nisso.
E viver assim é um ato em falso.
Gesto aéreo. Nessas horas corro
de novo o risco de cair. Uma
premonição. E começo a andar
tão firme, tão certo, tão decidido.
Sou então um barco de certezas
flutuando na incerteza que você;
meu corpo esse bloco;
um vazio espesso cortando;
o espaço-muro à frente,
direção mar e a favor do que
não sei. Mas, ai, toda certeza é terrível.
E se limita ao tempo que passa
irremediavelmente. A morte é um fato.
Assim como aqui sou em falso.
Elaborando uma memória que
nos pertence – a mim e a você.
Nada fica desse em falso além
dos malabarismos. Penso que
tudo pode se esvair, pelo ralo,
desaparecer mesmo. Por isso,
se eu disser algo que se
assemelhe a um código secreto,
a uma cifra hermética, não será
por desejo de obscuridade.
Mas por simplesmente pensar
em guardar uma margem de segurança
que eu próprio desconheço.
E é bom que assim seja.
Para seu bem. Para nosso bem.
Tento assim resumir o sentimento
de emergir no cristal líquido
onde a palavra nada entre nós dois.
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2 respostas a “PERFORMANCE”
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inha do trabalho, pensei emcomo minha sanidadedepende das minhas mãose em como estas dependemde uma vontade que nãoencontro em mim, mas em você,que sorte que é assim meu amigoum abração aqui do sul!!
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inha do trabalho, pensei emcomo minha sanidadedepende das minhas mãose em como estas dependemde uma vontade que nãoencontro em mim, mas em você,que sorte que é assim meu amigoum abração aqui do sul!!
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