Cada vez mais atento à vocalidade dos poemas escritos (cf. Paul Zumthor), parodio (de novo) Mallarmé: todo poema foi feito para acabar em uma voz. Mesmo quando se afirma a impotência do homem moderno, sua falta, sua perda da presença do corpo e da mítica plenitude – tão exemplarmente simbolizados pela própria escrita na desencantada história moderna -, é na poesia que esse encanto retorna quando a voz é ligada, quando o corpo é atravessado por intensidades, ritornelos sonoros, refrões, ecos, pulsações sanguíneas das veias, ritmos das ondas cerebrais. Daí a potente presença da voz no poema abaixo, cheio de ecos, rimas internas, alternadas, toantes, vocalizações, uma primeira estrofe que parece um refrão ecoando na cabeça, no peito – paradoxalmente lamento e exaltação, por quem sabia das coisas.
Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa –
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste:
A plenitude de cada presença.
E serás sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
[Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I, 1944]

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