O DESEJO É DEUS

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I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo. E que descanso me dás

Depois das lidas. Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

 [Hilda Hilst. Do desejo. SP, Globo, 2004, p. 17]

 

[ATUALIZAÇÃO: 02/03/2011]

OS AMANTES VI

Aspergidos de Eros

Descobriram o ópio.

Apaixonados, Deus lhes deu

A paixão que nunca

Se sacia.

[Araripe Coutinho. Citado por Thiago Martins em Deus morto, Deus posto: sagrado e sexualidade na poesia de Araripe Coutinho]

 

ROMANCE

Para as Festas da Agonia

Vi-te chegar, como havia

Sonhando já que chegasses:

Vinha teu vulto tão belo

Em teu cavalo amarelo,

Anjo meu, que, se me amasses,

Em teu cavalo eu partira

Sem saudade, pena, ou ira;

Teu cavalo, que amarraras

Ao tronco de minha glória

E pastava-me a memória

Feno de ouro, gramas raras.

Era tão cálido o peito

Angélico, onde meu leito

Me deixaste então fazer,

Que pude esquecer a cor

Dos olhos da Vida e a dor

Que o Sono vinha trazer.

Tão celeste foi a Festa,

Tão fino o Anjo, e a Besta

Onde montei tão serena,

Que posso, Damas, dizer-vos

E a vós, Senhores, tão servos

De outra Festa mais terrena

Não morri de mala sorte,

Morri de amor pela Morte.

[Mário Faustino. Poesia completa, poesia traduzida. São Paulo, Max Limonad, 1985, p. 151.]

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