Escrevi uma nova resenha crítica sobre o livro BREVES DIAS SEM FREIOS – POEMAS ESCOLHIDOS (1967-2024), de Sérgio de Castro Pinto. Ela foi publicada no Jornal Rascunho de julho de 2026 e o início encontra-se transcrito abaixo.

BREVES DIAS SEM FREIOS é uma antologia pessoal da poesia escrita e publicada por Sérgio de Castro Pinto ao longo de 57 anos. Excelente panorama da produção do também crítico, jornalista e professor aposentado de literatura da UFPB, ela traça um mural de sua longa trajetória como poeta. São oito livros, do mais recente, de 2024, ao mais antigo, de 1967, mais quatro poemas inéditos e uma longa fortuna crítica fechando a coletânea.
Logo no início, o poeta nomeia uma das seções de seu mais recente livro como Circunstâncias e desabafos. Chama a atenção o quanto uma das circunstâncias mais eloquentes ali é a da idade em títulos como O poeta septuagenário, Cremação, Bagagem, Casa dos 70, Viuvez, por exemplo. Mas, se a idade poderia sublinhar em seus poemas tardios uma mudança de poética, não é isso o que se nota. A sequência da antologia nos revela um poeta coerente em suas realizações ao longo das décadas, um poeta dono de uma palavra com unidade e autoconsciência — mesmo que sujeita às naturais variações ao longo de tantos anos de produção.
Tanto as circunstâncias de sua produção tardia quanto a unidade me trouxeram à memória uma frase de Goethe em suas Conversações com Eckermann: “toda poesia é circunstancial”. Mas as circunstâncias em Sérgio de Castro Pinto não se referem apenas a ocasiões muito específicas e passageiras, como na tradicional “poesia de circunstância”. Destaco dois modos de o poeta lançar mãos das circunstâncias em seus poemas: o primeiro é pela memória, não apenas a do poeta “na casa dos 70”, mas uma memória que funciona como motor lírico de boa parte de sua poesia; o segundo modo é entender e transfigurar os seres e suas circunstâncias pela lucidez das palavras.