poema

Você crê em tudo o que lê e vê ou só lê e vê

para reforçar o em que de antemão já crê?

Você ainda crê em algo,

crê que o amor nos põe a salvo

e que a cidade possui alguma alma?

Crê que o esgoto é um lago,

que o publicitário é um artista

criando seu inventário de deuses homicidas?

Ou você apenas vaga por entre mortos-vivos

que fingem não serem cativos de um sonho exclusivo?

Você crê na própria dívida,

como quem ignora que a vida se destina

para a morte – única verdade e norte?

Ou você crê que o amor ultrapassa toda guerra,

sem se transformar nela, como um ator

que em cena se projeta porque ama ser outro:

o personagem que age se dizendo somente imagem,

rei soberano, guerreiro ou guru de um povo?

Não importa a persona que incorpora a alma,

tão pura, tão incensada –

toda crença se desfaz no tempo de agora.