em suspenso (gabriela fernandes de carvalho)

Uma ex-orientanda e amiga escreveu o texto abaixo sobre a vida na quarentena e me enviou. Como ela não é dada a publicar o que escreve, pedi para publicar aqui, pois gostei, obviamente. Ela aquiesceu.

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

(Vivo-Lenine)

É como naqueles sonhos, em que você, do alto, vê alguém vivendo a sua vida. Esse outro tem controle de todos os movimentos, decide a direção dos próximos passos. Você, do alto, apenas vê: atônito, áfono, em desespero. Observa o outro tomar conta de um corpo que é seu. Os mesmos lábios, a mesma expressão, o mesmo gesto. Quem é esse outro? Você repara. Vê que o outro também é você. Dividiu-se corpo e consciência, ação e reflexão, o ser que olha e o ser olhado. Você consegue se ver fazendo movimentos que não faria. É a tomada de decisão. Você quer gritar, apontar, dizer “vá por ali”. Não pode. Só pode observar o outro você tomando conta do jogo, mesmo sem saber as regras, sem observar o todo, sem conhecer as demais peças. Você narrador e personagem, torcedor e artilheiro, analista e analisado.

Assim é a vida hoje, desde meados de março, ou até antes, quando sons distantes anunciavam temida mudança, devastosa mudança, incontrolável mudança. Assim como um titereiro que a cada dia vê romper, fio por fio, o elo que controla seu boneco. Restrito, distante, isolado. A vida entrou em suspenso.

Danem-se prazos, planos e promessas. A pandemia trouxe ao mundo a urgência do tempo presente, os homens presentes, a vida presente. Afastados, mãos guardadas, lavadas, ameaças. A falta do toque, do cheiro, do gosto. O sexo entremeado pela tela. Orgasmos com hora marcada e o tempo preciso do “apagar para todos”. Pessoas se olham pela primeira vez, em anos dentro do mesmo quarto. A obrigatoriedade da companhia incomoda mais que a solidão?

Parem os bondes, ônibus, rio de aço do trafego. De passagem, apenas carros oficiais, rabecão e deliveries. Agora, os temidos motociclistas no cotidiano são os que ajudam na manutenção da normalidade. De precarizados a heróis. Auxiliares, enfermeiros, maqueiros, operadores, atendentes, padeiros, motoristas, militares, bombeiros, garis. A “linha de frente” converge no mesmo espaço-tempo: oprimidos e opressores, humilhados e exaltados, invisíveis e indispensáveis.

A vida está em suspenso. O ar menos poluído e a falta de ar. O fio invisível da vida, sempre fino, pouco, frágil para quem é carente de direitos, agora ligado às mesmas máquinas que o fio reluzente das vidas de luxo. Chegou finalmente a hora da igualdade? O vírus não escolhe quem morre, o ministro sim. Vida longa aos jovens! A perda do olfato não é suficiente para disfarçar o odor dos corpos no planalto em constante estado de putrefação. A perda do olfato ainda é capaz de distinguir o cheiro de pobre e aglomerá-los em metrôs, mercados e valas. Sempre foi assim. Agora seria diferente? Já o poema, esse não fede, nem cheira.

A flor nasce ainda mais feia, há quem nem consiga enxergá-la, mas há os que a exaltem cheios de gratidão, coração puro e luz. De quantas formas é possível fugir da realidade? Digo adeus à ilusão. O inverno que se aproxima promete deixar ainda mais fria e ainda mais seca a estação. Para o calor sempre constante da Amazônia, um contêiner frigorífero para armazenar os mortos. Turvo, turvo, a turva. Muitos procuram a luz no fim do túnel que desabou, edificações geridas pelo inferno. O descriador do mundo. Deus – onipotente e onipresente- agora evita igrejas lotadas. O Senhor cuida de tudo de máscara e com álcool em gel.

A vida está em suspenso, tudo parou, mas não é férias. Continue a produzir seus textos, macramês e ansiedades. Surtos de pânico são comuns nesse momento, alinhe os chacras, medite, tome água tônica – tem quinino na composição, mal não faz. Mantenha a rotina, faça Yoga e malhe com quilos de feijão. O preço do feijão ainda não cabe no poema, mas há promessas de vagas verdes e amarelas, sem direitos, férias ou décimo terceiro. Fique tranquilo, é possível receber só metade do salário e negociar com o patrão. Tenha uma dieta balanceada, vitamina C e sonos reparadores, evite zolpiden, quatro mil pessoas estão morrendo por dia nos Estados Unidos, eles vão precisar. Pode andar descalço, sem se preocupar com vermes. O que era problema, hoje, milagrosa solução, 94% eficaz. Apesar de atletas não correrem riscos, adiamos as Olimpíadas por precaução.

A vida só perde para a live. Sertanejos são contra à meia entrada, mas fazem hoje, “de graça”, produções em suas casas de luxo, com mais de cinquenta funcionários, organizando um show em prol do isolamento social. Finalmente professores são filmados dando aulas. Suas performances de youtubers apresentam menos traquejo de estrela e mais esse rosto assim calmo, assim triste, assim magro. Em filas, respeitando um metro de distância e todas as recomendações feitas pela Organização Mundial da Saúde, ambulantes, desempregados e empreendedores aguardam o auxílio de 600 reais que permanece em análise. Na imundice do pátio, não há mais comida entre os detritos. Bichos podem ser agentes transmissores. Na rua, quem antes ansiava a caridade cristã dos transeuntes, deitados despercebidos entre animais e entulhos, hoje, grita loucuras pelas praças, ávidos de fome.

A vida está em suspenso, você tudo vê, mas não pode fazer nada.  Há quem diga que sempre esteve em suspenso, como naqueles sonhos em que você vê um outro que é você, vivendo sem a mínima noção do que fazer. Ou como uma marionete perdendo fio a fio invisível o elo com seu dono. A vida em suspenso, sem data, limite ou previsão. Você permanece, você marcha.

Para onde?