o sonho da razão

Há algo de profundamente perturbador para mim em ver o que mundo O sono da razão produz monstros - Disciplina - Filosofiase tornou. E lembro da minha formação numa universidade que via, e ainda vê, grande charme na força obscurantista e numa mistificadora crítica do discurso lógico-racional. Sem dúvida, há algo sim de muito charmoso na intelectualidade francesa que tanto furor causa em pensadores latino-americanos e africanos ansiosos por aprender a pensar pelo próprio umbigo. Mas uma coisa é certa: esse charme produz monstros quando desacompanhado de um verdadeiro investimento em educação. Em outras palavras, só se desconstrói o logocentrismo (Derrida dixit) se se for capaz de se usar o logos, aquele discurso lógico-racional – o que nós, brasileiros, nunca soubemos com nosso nível escolar abaixo de zero.

Há trinta anos, portanto, eu entrava na universidade para estudar e me deparava com mais uma das muitas modas intelectuais decorrentes do pós-guerra e da crise da razão decorrente do que levou às bombas atômicas, à eugenia nazista e à guerra fria. “Iluminista” era uma forma de crítica interna entre alguns grupos que eu frequentava. Mas hoje olho isso com profundo mal-estar, pois o modo completamente irracional com o qual boa parte da população aceita as contradições e os discursos do atual presidente só me fazem constatar o quanto nosso esforço educacional é absolutamente nulo. Seja efeito de “manipulação a mídia”, “fake news” ou outro motivo, todos esses efeitos são resultado de uma educação historicamente de péssima qualidade. E, via de regra, voltada para fogos de artifício mistificadores e obscurantistas sobre como resolver nossos problemas, como se não fosse pela própria educação. O processo civilizatório que a escola poderia proporcionar nunca convenceu nem os próprios educadores, sempre também vítimas das inexistentes políticas para a área.

Ouço imaginariamente alguns conhecidos dizendo que não é hora de se falar disso, que o momento tem problemas mais urgentes e exige outros ataques. Mas cresci com urgências urgentíssimas (miséria, fome e hiperinflação) e com a educação de qualidade aguardando em segundo lugar. Pois bem: estamos aqui com uma gigantesca urgência e a falta de uma boa educação nos fez eleger um mau caráter e idolatrá-lo. Aliás, uma educação que transforma políticos em “caçador de marajás”, “intelectuais”, “sobreviventes”, “guerreiros”, “heroínas” etc. não é educação, mas mistificação – em tudo longe de argumentos pedagogicamente fortes.

Pois bem: agora recebamos na caixa dos peitos nossos monstros mais íntimos, cevados ao longo de trinta anos com carinho e irresponsabilidade.