saber pescar e poder pescar

O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição é o terceiro livro de Clarissa Macedo, lançado em 2019 pela Ofícios Terrestres. É um livro com sangue nos versos, conforme sugere sua capa. E sangue em muitos sentidos, pois é poesia escrita no calor de um tempo no qual política e guerra se tornam indiscerníveis no Brasil. De um lado, o sangue é simbólico de uma tomada de partido (o “sangue nos olhos”) pela política em um país desde sempre imerso no sangue real, de outro lado, de uma guerra subterrânea que subiu à superfície social e à flor da pele de todo mundo.

Algumas tópicas nesse livro são articuladas menos com a ambição de comover ou persuadir o leitor e mais de posicionar-se diante de questões reconhecíveis por ele: “Na fila do emprego / me deram uma vara de pescar. // […] // Os peixes sumiram (!) / sugados por quem sabia pescar, / por aqueles que pescam de família em família / com o mar à mão”, ou “o anzol de pescar homens /hoje só responde à lei da cédula”. A “vara de pescar”, entre o saber pescar e o poder pescar, alegoriza um tempo que a poeta não afirma apenas como como atualidade, mas lamenta como permanência, já que a “palavra-passe chamada pátria” é “essa nódoa, essa traça / esse vazio imenso do nome / no mito de um tempo chamado aflição”. É como se o presente de aflição reatualizasse a condição mítica do país em de-formação: no “vazio” que é o “mito” de uma “pátria”, só resta a “aflição” de se viver por ruínas históricas “em que tudo parece que era construção”. Entre o mito vazio e a história arruinada, Clarissa escreve que “a boca diz o que o coração fala / e a dor é antiga: / chega, se instala / abre ocos na aorta, devagar, / para o aprendizado – / do enigma”.

Mas o discurso de seus poemas não fica entre o mito e a história. Há, sim, presente nele, o que percebo como uma crítica da cultura de consumo e seu “tabuleiro cheio de mercadorias”. Talvez o grande criador de mitos vazios na atualidade, mitos de que dependemos para conseguirmos sobreviver: “só este vazio com desconto / preenche de gordura a mercadoria”. Aliás, a crítica da mercadoria e da mercantilização da vida corta o livro, dando solo histórico a essa mitologia tão contemporânea que acredita poder fazer um país crescer à base do consumo: “a máquina de soda / e batata frita / disputa créditos de um cartão / compra cifras e hemisférios”, ou então “quando navego nos itens do supermercado / no afago de suas prateleiras / sinto como se a guerra fosse aqui / […] / preciso mesmo reduzir o peso, diz a revista, a publicidade”, ou ainda “1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola em vão”. No livro de Clarissa, no entanto, a contraface do fetiche mercantil é a fome que a “vara de pescar’ não mata: “as notas no meu bolso / caminham trágicas para o fim”.

Algo me chama a atenção no discurso do livro: com óbvias tópicas da esquerda, o discurso não lança mão de utopias – ausentes. Se o passado que se prolonga no presente é o das ruínas (“tudo o que vive / é esta parede sem reboco / que observa, vigilante, / a goteira da sala”), o futuro é a certeza de solidão: “sujas, as mãos cansaram / de esperar, de buscar / uma pia em que a água / seja mais que silêncio”, ou então “e seria só um protesto tímido / a infelicidade que habita o tempo do futuro”, ou ainda “a lápide que me cobriu / na vida”. Sem dúvida, algo se perdeu no Brasil do século XXI, o futuro chegou e não era o sonho desenhado e desejado pelas gerações que pouco a pouco nos trouxeram até aqui. Mas, mesmo assim, Clarissa escreve: “Inábil para tudo no mundo, / nada, nem mesmo viver, / detém o passo de fazer palavras / e sua amargura”. Escrever, então, não é uma questão de utopia em O nome do mapa…, mas o que parece restar à poeta – o resto da utopia.

É o que se percebe da peça final do livro, composta por 10 poemas mais “Prólogo” e “Epílogo” e chamada “Ou um (mini)épico de espanto nos olhos”. Nela, mito e história se reúnem no épos de quem pontualmente recupera a história do Brasil como uma guerra de dominação – de terras, dos povos delas tradicionais, dos povos para elas trazidos e escravizados e da manutenção desses e de outros modos de opressão. Se nos épicos clássicos o futuro também se fazia presente sob a forma de profecia ou previsões, no “(mini)épico” de Clarissa a repetição não traz qualquer diferença. O discurso é o da terra arrasada.

Curioso é, no entanto, que quando os poemas diminuem de tamanho e se encaminham para o “(mini)épico”, algo se insinua: um discurso sobre um tempo é incorporado para além do tempo histórico. O poema “Correnteza” anuncia essa incorporação pela imagem do rio – “No racho fundo daqueles pés / um rio inteiro / que corre sempre pro arquipélago” –, ou o poema “Tempo” falando sobre perdas de um passado que não é só ruína humana – “Quando os figos da janela secarem, / são meus olhos que, esquecidos, / mergulharam pra sempre no nada”, ou ainda em “Mineral” tratando da memória – “As cores de meu ancestral / dizem os nomes que tive / e cortam a minha alma de mistérios”. Em todos, um lirismo dolorido, é certo, mas como que apaziguado justamente pelo próprio fato do lirismo (que não resiste nos demais poemas, feitos de escombros). Esse lirismo, em “Nota de ternura e verso”, se faz amor lírico e finalmente abre uma fresta no ciclo de dor que é todo o livro.

Caberia perguntar, então, por que fechar, ao invés de abrir, O nome do mapa… com uma série de 12 poemas – o “(mini)épico” – que não deixam frestas (mesmo que pessoais e líricas) para se respirar fora dos impasses do livro (e do país), deixando-as para a antessala? Tenho minhas hipóteses, mas cabe ao leitor verificar por si próprio se o que percebi no livro de Clarissa faz sentido ou não.