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Até a pandemia da Covid-19, o século XXI tratava ansiedade, depressão e suicídio como suas principais epidemias, os índices que mais cresciam no mundo e em todas as faixas demográficas. Depois da pandemia da Covid-19, a “frágil saúde irresistível” (Deleuze) tornou-se contraponto à competição produtivista do mercado de trabalho e à violência retórica da política, que alimenta sensações de perigo, medo, urgência e crise permanentes. Vivemos em tempos de poéticas de força e agressividade, a exemplo da ascensão dos neoautoritarismos e da hiperaceleração digital na produção, circulação e consumo de informações – inclusive as artísticas e literárias. Principalmente elas. Certo é que escritores e artistas suicidas sempre existiram. A lista seria interminável. Vários sofriam de vícios e transtornos mentais e mesmo assim criaram obras disruptivas. Talvez por isso mesmo. São pessoas que sacrificaram suas vidas pela invenção de suas obras, poderíamos dizer. Mas há poucas semanas, em aula sobre Stella do Patrocínio, interna do Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, que teve seu “falatório” oral gravado, transcrito, selecionado e publicado como poemas em livro que a transformou postumamente em poeta, [nessa aula] um aluno fez referência a um possível caso oposto: David Foster Wallace, para muitos o último grande romancista estadunidense. Se Stella sempre teve suas palavras recebidas como discurso psicótico, que somente no limite pôde ser também recebido como poético, ninguém recebeu os romances de Wallace como testemunhos de um sofrimento mental insuportável. E se receberam, isso pouco importava diante da força poética do seu texto. Essa insensibilidade da leitura e da recepção fez de Wallace mais um exemplar de escritor suicida, sacrificando-se em nome da grande arte que produziu. Morreu com 46 anos em 2008 e a literatura ganhou mais um artista trágico e cultuado ídolo pop. Os artistas e a arte trágica – no ímpeto de transgredir e superar os limites da vida e da invenção – já não nos servem como modelos para a arte e literatura. Na verdade, servem de modelo para se produzir bens vendáveis, cada vez mais e melhores, até que se rompa o fio da vida. Hoje somos nós que vivemos à beira do caos subjetivo, fazendo nossa, também, a “frágil saúde irresistível” com a qual autores escrevem, segundo Deleuze, fazendo nosso, também, um corpo pronto a colapsar. A crise da saúde mental pode ser vivida e tratada individualmente, mas não é uma crise individual, não é a crise do gênio incompreendido do romantismo e da cultura pop. Sendo coletiva, ela é uma questão de quem lê textos sem tomá-los como sintomas da cultura. É um problema de poética da recepção. Pois quem escreve, no século XXI, de alguma forma, testemunha pelos sujeitos anônimos que sobrevivem sozinhos com suas bombas mentais, as que os levam a preferir, com cada vez mais frequência, tirar a vida a continuar sobrevivendo nas condições em que escrevemos e lemos.