pensar pensar pensar

Li uma entrevista com o alemão Bernd Ternes sobre Giorgio Agamben que referenda o que penso ser hoje a abertura possível para reflexão diante das mudanças políticas que presenciamos. Também percebi essa tentativa de abrir espaços de reflexão em uma entrevista com José Arthur Giannotti na Folha  ano passado, a propósito das eleições.

Ternes afirma que a possibilidade de influência e aplicação do pensamento de Agamben no debate da filosofia política contemporânea é “muito pequena, infelizmente. O quanto vejo, pelo menos na reflexão universitária das ciências humanas, Agamben é parte de uma espécie em extinção. O ‘terror’ exercido pelo pragmatismo/neopositivismo, pela orientação obsessiva para a aplicação, pelas soluções rápidas, deslegitima um pensamento que consegue intuir em eixos temporais realmente abrangentes”. Ou seja, o pensamento universitário ganhou um pragmatismo e aplicabilidade que são o oposto do que Agamben propõe e pratica para o pensamento: a potência da contemplação e da linguagem da poesia como formas de resistência ao poder da ação produtiva do trabalho e da linguagem do capitalIsso ressoa até certo ponto no que diz Giannotti – malgrado também uma lógica produtivista ainda estar embutida na sua visão social-democrata do “capitalismo de conhecimento” diante da pergunta “O que o sr. achou do resultado das eleições?”, à qual ele responde: “Estou contente porque esse movimento antidemocrático, que é profundo e ocorre no mundo inteiro, representa o capitalismo atual, que é o capitalismo de conhecimento. Isso exige uma universidade que faça pesquisa”.

Quem ler esta resposta com o “modo Olavo de Carvalho” ligado (entenda-se: unilateral e superficial) a perceberá somente como elitista, por colocar a pesquisa voltada a um capitalismo de conhecimento e não social e responsável. Mas ela é de algum modo também uma profissão de fé na universidade como lugar para o pensamento inovador, e não para a profissionalização neoliberal do pensamento (voltado para o mercado) ou para o pensamento conservador (voltado para a tradição). Pensamento inovador em artes e ciências humanas, entendamos, não como “inovação social, política e/ou técnica” (que é o alvo de Ternes na resposta acima e é o atual estado do pensamento à esquerda), mas inovação enquanto forma-de-vida (cf. A potência do pensamento, de Agamben). É isso que – nos últimos anos – ficou claro para mim: para se pensar verdadeiras e profundas mudanças nas nossas vidas é preciso interromper os discursos que circulam, pensar para além das lógicas só aparentemente rebeldes, mas conservadoras na dependência de grupos e financiamentos de pesquisa, pensar para além das panelinhas e dos lobbies corporativistas – pensamento como liberdade.

Por mais que mudanças tenham sido quantificadas (ah! tecnocratas!), divulgadas (ah! publicitários!) e endossadas (ah! corporativistas!) nos governos anteriores, elas foram mudanças meramente cosméticas e no fundo pró-mercado (“acesso ao consumo”), que à primeira crise séria afundaram e nos trouxeram ao atual estado de coisas. Não foram mudanças de vida. E não adianta sonhar em voltar. Vive-se apenas para frente. Importa agora – talvez, mais do que nunca, pelo menos para mim – pensar por isso para frente e de modo diferente. E é isso que a universidade parece ter desaprendido. Deixou as mudanças nas mãos do consórcio Estado-Mercado e agora esqueceu como se pensa mudanças, ou melhor: como se muda o pensamento – e vejo muitos colegas meus entre histéricos e nus.