notas in progress sobre herberto helder

Por um lado, boa parte dos principais comentadores e intérpretes de HH tratam-no como um poeta que transgride os códigos convencionais da linguagem. Mas se GB está correto ao afirmar que o gesto de transgressão é codependente da existência de uma interdição, de um limite, de uma Lei jurídico-moral, fazendo com que a transgressão do interdito seja simultaneamente a reafirmação do interdito – ou seja, que “a interdição está aí para ser violada”, “a interdição é o limiar somente além do qual o homicídio é possível” e “a transgressão organizada [a guerra, por exemplo, quando é permitido matar] forma junto com a interdição um conjunto que define a vida social” (2002, p.98, 99 e 100) -, então a transgressão como definidora dos usos da linguagem que HH faz carece da ambição de criar e viver em outro mundo. Ao contrário, a transgressão está prevista na própria ordenação (jurídico-moral) da “vida social”, pois “o sagrado é o objeto de uma interdição” (2002, 102) – sagrado entendido como aquilo que é consagrado, ordenado e protegido de um uso comum pelos homens.

Por outro lado, se GA está certo ao propor uma redescrição do par sagrado/profano a partir da interpretação feita por WB da modernidade capitalista como forma hegemônica de religiosidade e consagração moderna (de resto, uma tese comum ao desencanto weberiano), então a hipótese é que a linguagem poética de HH pode ser lida, ao invés de como transgressão, pela lógica da profanação – definida por GA como a restituição dos dispositivos ao “uso comum dos homens” (2007, 71), que se reaproximam deles sem a precedência autorizada do seu uso técnico e funcional – pode fazer sentido. A linguagem como dispositivo de poder e controle passa a ser de uso livre e lúdico, um “puro meio” (2007, 76) destituído de finalidades que, nos dias que seguem, sempre são sobre-determinadas pela funcionalidade do trabalho produtivo.

Mas a obscuridade, o hermetismo e a ilegibilidade que fazem a fama e fortuna do poeta, enquanto operadores de leituras já consagradas, não apontariam na direção contrária a essa ideia de uso livre e comum por parte dos homens? O comum na comunicação não estaria justamente no compartilhamento de mensagens e códigos inteligíveis e comunicáveis para todos, ou ao menos para a maioria, o que retiraria toda funcionalidade da linguagem de HH? Intuo que a resposta é não. O “uso comum” da linguagem deve ser entendido através da palavra “restituição”, que pressupõe um pertencimento da linguagem, não originário, mas anterior à consagração institucional, anterior à linguagem entendida como comunicação – sobre a qual se funda a “vida social” contemporânea e a posse da linguagem pelos meios de comunicação e consumo de massa. Penso que um uso comum da linguagem que escapa à comunicação é um uso afetivo, isto é, um uso que circula entre corpos e sensações – isto é, o uso da linguagem como arte, não no sentido da romântica “arte como expressão”, nem da clássica “arte como tékhné”, mas de uma contemporânea arte como vida. Só se faz um uso comum da vida quando se restitui o pertencimento da vida aos próprios viventes, do mesmo modo, só se faz um uso comum da linguagem quando se restitui o pertencimento da linguagem aos próprios sujeitos da enunciação. Por isso é importante destituir a linguagem e a vida dos meios de comunicação e consumo de massa. Importante frisar que essa despossessão está no uso comum, não no seu sentido.

Pode-se daí, portanto, tirar as mesmas conclusões operativas de MEG e MLDF quanto à poética de HH, definindo-a como obscura, hermética e ilegível, mas abdica-se de uma Lei Moral como se fora lei natural, por mais que suas leituras sejam fiéis ao espírito do poeta. A moral hoje é aquela do trabalho produtivo, funcional e finalista. Minha mirada, todavia, é a de tentar desativar a intencionalidade do próprio poeta, sobre a qual ambas assentam suas leituras operativas. Mesmo que as reverenciando em seu papel fundador e fundamental, usos profanadores da linguagem implicam em leituras inoperantes, leituras que desativam o poder da linguagem em prol de sua potência. Um uso comum e livre da linguagem na verdade, ao destituir o comum do poder de comunicar pela linguagem, devolvendo-o a ela como potência. A leitura da poesia de HH é menos a de necessidades (outrora relacionadas a pulsões naturais, hoje relacionadas a sobrevivências econômicas) e mais a de possibilidades e contingências – o que aproxima o autor do leitor, chegando ambos mesmo ao risco de confundirem-se pelo uso do dizer, não pelo sentido (do) dito. Nesse limiar do uso (um uso limiar) em que se dissolvem poeta e leitor, eu e outro, sujeito e objeto, palavras e coisas e em que se (re)atualiza o ato poético. HH parece propor ao seu leitor um ritual profanatório da linguagem consagrada como comunicação, desafiando-o a tomar posse da linguagem pelo uso do poema, não pela sua interpretação. O leitor nunca possui um poema, mas tem por ele a linguagem ofertada. Não há na poesia de HH troca, comunicação ou negociação, mas a pura possibilidade da linguagem ofertada por uma lógica econômica da dádiva, da oferenda e da gratuidade.