este poema

este poema não existe. ele é feito de velocidade, expande-se ilimitado e informe entre núcleos subatômicos e revela que nada há de real, só um tremor da matéria quando despisca faiscante a partícula antideus.

este poema não existe mais. deixei-o quando fui para a floresta, abandonando-o em meio à trilha, junto à tralha que comigo levei para me perder de mim e de tudo que compunha um projeto de livro, feito do que há de mais humano:

parafuso, família, telefone, futuro, microscópio, telescópio, lápis, livros, louça, receita médica, infinito, cartões (de ponto, profissional, transporte, identidade, crédito, saúde), partidos, medo, vaidade, orgulho e vício.

este poema não existe mais fora de mim. e eu não mais existo fora dele. a partir deste instante não sou mais que um traço de luz atravessando a mata, serpenteando sem sair do lugar, biosfera apagando quem vive muito junto, quem vive de produzir futuros e esperanças.

este poema é desfeito na esperança que mata a vida de poemas que são só partículas ondulatórias, por isso este poema não mais existe mais e morreu pelo sonho de futuro algemado em discursos de proprietários do destino. 

este poema não tem mais destino: acelerou seu delírio até desaparecer da face da terra.