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Laboratório de incertezas é o quarto livro de poemas de Wesley Correia, publicado neste ano de 2020. Na verdade, uma antologia pessoal, já que reúne os inéditos mais recentes e poemas escolhidos dos seus três livros anteriores. Uma bonita edição da Malê, da capa e acabamento à formatação e tipo de papel.

Antologias pessoais geralmente têm dois formatos: ou o poeta se dá ao desafio de embaralhar os poemas publicados, relendo-se e propondo novas leituras do conjunto selecionado, ou ele mantém os poemas escolhidos no contexto original de publicação, sugerindo uma visão do seu percurso como poeta editado. A “Nota do autor” que abre o livro evidencia a segunda opção. Eu, no entanto, resolvi atravessar ao meu modo seus poemas, ao mesmo tempo em que me mantive fiel a sua proposta. Li as seções do livro ao contrário, isto é: apesar do livro se organizar da mais recente seção às mais antigas, li as seções na direção inversa. Queria perceber o percurso de Wesley – dos primeiros versos aos atuais.

Os poemas selecionados de “Pausa para um beijo e outros poemas” já traziam alguns elementos que sublinham sua poesia. São textos marcados por uma linguagem (auto)reflexiva, que busca mais traduzir argumentos do que afetos em imagens. Embora afetividades, claro, também estejam presentes, como em “Sete pecados”, mas predomina a densidade “pensamentada” de “Alter face”, “Do nascimento” e “Teatro”. Há também a observação da vida, como em “Da rua e do sonho”, mas a observação que problematiza e persegue a si mesmo é a mais característica desses versos, o que me parece típico de um jovem poeta: “Sei-me fiel ao / sistema metafísico / do poema que não nasceu” ou “Fico alheio / como se eu / por fora de mim”.

Na seleção de “Deus é negro”, há mudanças de dicção, algumas discretas, outras visíveis. Das discretas, o tom reflexivo se torna mais ritualizado, o que é reforçado pela presença de orixás como novos e mais visíveis signos da sua poesia e discurso. Ela agora deixa de ser tão “argumentativa” e parece se condensar mais (“Dichten = condensare”, na equação de Pound) através de rimas e muitas anáforas em poemas como “Capoeiragem”, “Batuque”, Noturno”, “Plural” e “O velho”. Digamos que o elemento sagrado – latente na densidade anterior – emerge na segunda seção de Wesley, fazendo-se mitologia verbal e solenidade ritual. Um exemplo, que retiro do livro posterior, mas que realiza tanto a condensação verbal quanto a sacralização do discurso é o verso “Teu Ilê é início absoluto”.

Os poemas escolhidos de “Íntimo Vesúvio”, seu terceiro livro, trazem ao leitor um deslocamento da solenidade inicial tornada dicção mais próxima do sagrado no segundo livro. Agora, seus textos ganham um lirismo mais aberto, com maior uso de referencialidades e corpos, muitos corpos. Das referencialidades, havia nos poemas dos livros anteriores a presença de personagens variados. Agora nomeia-se ruas (“O coração de Eduardo parou / na Avenida Carlos Gomes” ou “Quando nasci, já havia a misteriosa paixão / que rompe das fendas das pedras de ferro / e a rua Professor Mata Pereira urdia outras belezas”) e muitas e diversas cidades (Cruz das Almas, Irecê, Cartagena de las Índias, Lisboa, Feira de Santana, Camaçari). Dos corpos, alguns parecem mortos (“Eduardo” e “Camila”), outros são tocados pela tristeza e beleza da vida (“Duplo”, “Painho, Mainha”, “A filha de Zélia”, “Alujá”), mas também há muitos corpos eróticos. É como se a ritualidade sagrada do candomblé na segunda seção continuasse presente na ritualidade do erotismo de poemas como “Íntimo Vesúvio”, “A mulher mais bela”, “Memória do sol” e no longo e exemplar “Ela”. Chama a atenção como há poemas nessa seção que falam de nascimento e de morte.

Já os textos inéditos da seção homônima do livro são visivelmente poemas de maturidade, não a maturidade formal, mas a vital, afetiva e experimentada, do sujeito que diz. Claro, isso aparece formalmente, mas ainda pelos mesmos elementos da poesia de Wesley. Meditativo, por exemplo, o poeta chora seus mortos e reflete sobre as incertezas do tempo presente e futuro, como em “Teu homem”, “Corpo morto de meu pai”, “O Verbo usurpado” e “Sobrevida”. Já a “incerteza” do título às vezes é mais contextualizada, como em “Questão de vala”, às vezes é a mesma de uma vida deserotizada, como no bonito “Imaginário”, embora seja em “Minhas filhas” que o poeta mantenha um fio da esperança através do fio das gerações: “Quando a dor chegar, / navalha em histeria, / saibam, minhas filhas, / todo corte há de fechar / como a noite se fecha / em face do novo dia”.

Ainda haveria muito mais a dizer dos poemas de Wesley, de como eles dramatizam, em tudo o que eu disse anteriormente, certa memória familiar, comunitária e étnica do Recôncavo Baiano, mas fica a cargo do leitor perceber o “cosmo espesso da Bahia” na poesia de Wesley Correia. E até mesmo discordar de mim.