o cinema da poesia

Valho-me de alguns nomes do chamado cinema de poesia para afirmar que Escrito e dirigido por Moisés Alves tem um pouco do onirismo de Buñuel, da paixão de Varda, da edição de Godard e dos rapazes de Pasolini. Mas como trato de um livro de poemas, o quarto de Moisés Alves, publicado pela Circuito, em 2018, o cinema de poesia dos nomes anteriores se transforma no cinema da poesia, formado nesse caso por poemas de média metragem, escritos plano a plano ou em planos-sequência – entre montagens e atmosferas. “Acompanhe a cena”, pede Moisés ao longo do livro, para perto do fim afirmar: “sou devolvido aos clichês”.

Moisés usa com liberdade os versos, não apenas porque não lança mão de métricas e formas fixas, mas porque consegue com fluidez intercalar versos muito curtos com versos longos, criando um sedutor efeito: somos conduzidos por ritmos que em momento algum parecem labirínticos ou lineares. É justamente isso: de verso em verso, as frases não guiam, mas são guiadas por imagens e cenas, fotogramas e edições que não ambicionam a verossimilhança narrativa ou a hipnose musical. A enunciação prioriza uma abertura de possibilidades ao leitor, sem orientá-lo, pois o sujeito que fala o faz no mesmo ritmo das imagens. É por isso que Moisés escreve poesia: não há ambição em criar qualquer totalidade discursiva no que se diz, mas um corpo de sensações oferecendo-se e anunciando “o que faz um corpo estancar assim àquela hora no meio da praça como se brecadas arranques síncopes recuos solavancos o curto circuito de um espanto fosse outra espécie inamovível de dança”. E é também por isso que Moisés faz cinema: as imagens e cenas são exibidas no átimo do seu desaparecimento diante do nosso olhar, transformando-se em outras: “[…] / a parte direita do peito / desaparecendo / o naco saudável do peito, um câncer ainda verde / desaparecendo / uma vértebra, um gesto / o dente da frente, o sorriso, o dente de improviso / desaparecendo / […] / a marca da navalha no peito / desaparecendo / o boi, carne de boi dentro da boca / desaparecendo / nós, sentados para o café / […]”.

Embora no passeio por sensações tudo vá desaparecendo diante dos olhos, não há saudades ou lamento na sua poesia. Há certa experiência da memória e do esquecimento, o que faz de seu discurso uma experiência do tempo e uma arte de edição do olhar: “um alvo / e um cão passando / e uma criança dançando na calçada / não vale a lágrima / se não canaliza para / o saber da vida / e arte”, ou “o futuro / pede para cada coisa / queima-se antes / de eu chegar”. O tempo no seu discurso é o devir: “a forma diz vou ali brilhar / e desaparece / vai desaparecendo com máxima / delicadeza”, “esta é a cena principal do poema // uma queda / sutil / acontecendo”, “a paixão finda em algum lugar / porque precisa começar / em outro / você bem sabe // quem não perde / não ganha / a delícia”.

Mote do livro, “acompanhe a cena” reatualiza essa mutação do presente da enunciação e da leitura quando alguma “queda” está prestes a ocorrer: “veja / passando o tempo / o tempo passa e ainda / como se um sopro / por essas redondezas o tem- / po esquece e / desesquece”, ou “a forma não volta / assim como não volta / a finura dos pelos de / pernas assim como / não voltam / acontecimentos indispensáveis”, ou “ele está na aprendizagem a perda/ desde o nosso / nascimento”, ou ainda “a vida está solta / levante ágil o braço / e deixe o vento passar”. Daí que Moisés pede ao leitor que “acompanhe a cena”. No livro, acontecimentos, desaparecimentos, passagens, não-retornos, esquecimentos, perdas, transições e transformações são outros nomes para o devir que a fotografia tenta capturar e o cinema põe em movimento controlado: “ele filma um poema intergaláctico e depois vai à feira / filmar um tomate apodrecendo”.

Por essa experiência do tempo, o autor sabe que “a vida não tem imagem”. E sabe que o que se escreve não se vive – ou melhor: escrever é uma forma de viver dizendo uma vida que “não tem imagem”. O efeito dessa experiência da vida através das palavras é semelhante à do erotismo: “ele tem como política filmar volume, peso, medida / o mundo da cintura de moças rapazes / fazer da cintura exuberante vida // […] // repare como uma boca / orgasma e morde e quer / e quer e lasca”, ou “uma mancha quase cárnea / uma espécie de textura volátil”.  

Daí que as palavras-imagens de Moisés são eróticas porque são incapturáveis na experiência do tempo. Nelas encontramos o cinema da poesia: “prepara-se para a foto / ela em desconcerto não acredita / em capturas luminosas / só face a face / ela deixa o necessário / ir se mostrando”. Se o necessário é sempre um excesso incapturável – sussurro, decote, músculos, pele, pulso –, as palavras da poesia de Moisés guardam potenciais sensações de um filme.