décio torres cruz sobre “dói-me…”

Meu colega de UFBA, Décio Torres Cruz, que acabou de lançar um belo livro de poemas, Paisagens interiores, escreveu a mini-resenha abaixo e publicou no seu perfil do Facebook:

Sandro Ornellas acaba de nos brindar com seu novo livro de poemas, “dói-me este mundo de violentas esperanças”, recém-lançado pela Editora Patuá. O prefácio, da também excelente poeta Ângela Vilma, o apresenta como um monumento literário. Escrito em meio à pandemia, entre 2019 e 2021, a coletânea subdivide-se em 7 partes, introduzidos pelo poema “Soleiras”, de onde o título foi retirado, numa espécie de canção ecológica de um grito sem fôlego diante de uma mata ardente. O livro é uma elegia em forma de súplica à vida que nos restou e ainda nos resta neste mundo pandêmico, um apelo à comunicação e ao cuidado com o outro e com a nossa mãe Terra, um alerta desesperado para o fim do silêncio dos viventes ante o signo da morte em vida. Seus versos e cada escolha lexical criam imagens bastante fortes, com um vigor contundente que nos atinge em cheio lá no centro, no núcleo da nossa alma que reverbera cada som e cada eco de suas palavras como uma triste prece ou acalanto. Há espaços para descrever melancolias e poemas sem fôlego, mas também intervalos nos quais o poeta reflete sobre a criação poética e sua (in)existência e sua (in)útil utilidade diante de um mundo de arremedos. Há, também, algumas brincadeiras, jogos intertextuais com quadros artísticos e reflexões sobre o desamor humano (“E o ângulo por que é visto / revela a falta de amor com que vive o Abaporu”) e teorias e limiares entre amor e guerra (“O poder não ama o amor e mata quem o sabe de cor”), que se fundem em “Guerramor”:


“Segura minha mão – querida – a insensatez domina
corações mentes e tudo se desfaz como não existisse
Ama-se hoje a segurança de um deus soberano e sanguinário
O mundo derrete sob os pés afundando em movediços amores
de uma cova coletiva […]”

E há, por fim, o espaço do silêncio, não o silêncio hamletiano nem aquele dos inocentes, mas o silêncio cúmplice/delator de toda tragédia:

“Não reconheço
mais os viventes
Eles são mortos
e eu sou silêncio.”

Pedidos podem ser feitos diretamente com o autor aqui marcado ou pelo site da Editora Patuá.