avatares do capital

Li um artigo sobre a apropriação de Ezra Pound por jovens neofascistas italianos e cada vez mais me convenço de que Pasolini estava absolutamente certo quando dizia que a sociedade de consumo massificado e de informação seria uma nova forma de fascismo. A certa altura, o autor cita o historiador inglês Tony Judt afirmando que “fascistas não têm realmente conceitos, eles têm atitudes”. Fiquei aqui pensando que o fascismo renasceu – dentre outros motivos – graças ao elogio da ação política (como Arendt definiu a esfera política) quando cooptada pelo trabalho produtivo (e pelo marketing econômico) como meio imposto para sobrevivência e com vistas a uma finalidade moralmente superior. Isso fez o fascismo florescer há 100 anos e o faz retornar agora. Ao mesmo tempo, sua contraface há 100 anos também renasceu. Baseados no elogio do trabalho como fundamento ontológico do humano com vistas igualmente a um fim moralmente superior, o comunismo e o anarquismo voltam a ocupar muitos discursos e espaços jovens e já não tão jovens. E é o trabalho que me parece amarrar isso tudo. O trabalho no mundo moderno sustenta o capital e prolonga a escravidão do mundo antigo. Arendt falou do totalitarismo como decadência da esfera política pela sua apropriação pela esfera do trabalho, que transforma todo sujeito político em sobrevivente e o impede de realmente dedicar-se a uma ação na pólis – uma ação essencialmente política. Mas a ascensão e vitória do capitalismo financeiro desde nos 70-80, junto com as tecnologias da comunicação ganhando nosso cotidiano mais íntimo e mais público, nos trouxe a essa reemergência de fantasmas em novas bases. Todos eles (fascismo, comunismo, anarquismo) são avatares do capital e do capitalismo e sua obsessão pela ação produtiva e direta, ligada à vida em sua força de crescimento (econômico) e consciência culpada progressista como parte do processo civilizatório que chamamos “modernidade”. Ou substituimos a atitude ativa por uma atitude contemplativa, ou inatividade, como o valor a ser perseguido ou estaremos verdadeiramente no fim, pois hoje a produção de zumbis e cadáveres não precisa mais de campos de extermínio e senzalas afastados das cidades. Isso se dá a céu aberto, ao nosso lado, em nossos trabalhos dignos, do lado de fora das nossas casas, mesmo dentro delas, sendo parte inerente da própria “política” pela qual lutamos. Recordo que “contemplação” vem do grego “theoria”, que significa especulação, olhar (‘speculum”) pensativo, interrogativo, observação reflexiva, um certo ócio, que quando negado pela ação gera o negócio. Sem isso, me parece que permaneceremos em círculos, dentro do mesmo processo civilizatório falsamente “progressista”, achando que há um fim, uma missão e uma obra a cumprir na vida – hoje o nome disso tudo é “trabalho político” e tem a cara desses avatares da produtividade capitalista.