moral pública

A ideia de moralidade pública é uma excrescência vinda diretamente da Idade Média, uma sobrevivente transhistórica, um fantasma de claustros que nos assombra e – em nome de um “progresso moral” – nos captura, controla e sujeita a instituições. Mas se há um “progresso moral”, há um destino a cumprir, uma missão a realizar, um fim a se chegar, um bem a obter. Essas figuras de transcendência (destino, missão, fim, bem) são máscaras de uma entidade monstruosa, a penetrar nossos corações e mentes pelo autocontrole, o autodomínio e a autoexploração através do medo da culpa e do pecado. É preciso cultivar alguma zona de irresponsabilidade diante da vida pública, para que nossa vida mais pessoal não perca definitivamente a legitimidade. Não me refiro a qualquer sorte de individualismo, mas a uma ética (ethos) em que o sujeito, ao invés de ser “cuidado” por padres travestidos de policiais e legisladores ascéticos, possa realmente cuidar de si de forma autônoma e livre.