acelerar, desapegar, relatar

A aceleração na circulação de informações possui muitos interesses escusos: políticos e econômicos. Sendo suas consequências devastadoras para os indivíduos. Só que não reveladas, pois parece que seu incremento serve para combater os problemas, quando na verdade é parte deles.

Como mostram os vazamentos da Lava Jato, o segredo é o fundamento da política. Entre políticos, nada é dito de modo direto, mas obliquamente, através de recados retoricamente manipulados para que as reais intenções não subam à luz do sol. É sempre uma questão de como dizer o que o outro quer ouvir sem que eu revele o que eu quero de fato fazer. Na verdade, nossas instituições funcionam assim: estados, famílias, igrejas, escolas, hospitais. As formações discursivas de uma sociedade são atravessadas pelo vírus da ambição (irrevelada) pelo poder. O fetiche do falo, que “traduzido” em termos da academia contemporânea pode ser chamado de o lugar do discurso. Mas, como em todo fetiche, há uma magia fazendo com que esse lugar seja também um outro, secreto.

É aí que entra a circulação da informações na era digital, quando encaminhamentos, cliques, tempo em página, visualizações, comentários e likes são quantificados e transformados em dinheiro (precificação, monetização), fruto de uma pura especulação informacional em escala global (as criptomoedas só incrementarão ainda mais esse quadro em breve). Grandes empresas norte-americanas como os FANG (Facebook, Amazon, Netflix, Google), bem como Russas e Chinesas (Telegram e Huawei) disputam esse espaço econômico numa guerra política que engole e joga também médias, pequenas ou microempresas atuantes nas redes e desejosas por sobreviver.

O que ocorre, portanto, quando o aumento na circulação de informação política – cheia de segredos – se soma ao interesse pelo lucro nesse mercado tecnoeconômico da política? Se por um lado sempre disputaram e dividiram o poder, por outro cada vez menos precisam do indivíduo para manter-se funcionando e lucrando, pois bots e IA fazem o papel (secreto) de fingir conteúdos relevantes para todos – quando informação cada vez mais se confunde com desinformação. A atual politização do mundo evidencia o interesse no desequilíbrio do sistema – ou um fragilíssimo equilíbrio. Cada vez menos somos fundamentais para o crescimento e desenvolvimento econômico e menos fundamentais para a sustentação da “democracia” instituída. Cabe aos indivíduos somente conservá-los no poder, legitimando esse sistema de tecno-cabresto, pelo voto e pelo consumo (real ou virtual). Passa por aí a lenta e gradual transformação do moderno conceito de democracia representativa em democracia de vigilância – que não tem anda a ver com a deposição de Dilma, mas com um novo e mais poderoso controle legal do cidadão para ser reconhecido cidadão.

Enquanto isso, com a aceleração na circulação de informações, os índices de ansiedade, depressão e suicídio crescem exponencialmente. Os primeiros ajudam a manter o sistema fragilmente azeitado (e exercem a mesma função do medo na política); os segundos indicam a necessidade de ajustes (a exemplo das reformas trabalhista e previdenciária); os terceiros indicam a necessidade de substituição de peças (o que é muito fácil).

Por isso não acredito que a aceleração seja capaz de fazer tremer qualquer produtivismo ou manter índices de empregabilidade (que mundialmente estão parados há mais de cinco anos), ao contrário, apenas reforça a lógica de dominação. E me mantenho como observador, tentando criar meus desapegos intelectuais, culturais, profissionais, financeiros e relatando o destino sombrio cada vez mais presente.