das leituras

A leitura nasce do tédio e da solidão. Apenas por não ter nada o que fazer, nem com quem fazer, um jovem abre um livro e é capaz de ficar com ele por horas ou dias à fio. Se o que se segue daí é uma criação de afetos sempre renováveis, um saber pessoal e intransferível, uma alegria investigativa de atmosferas próprias ou alheias, isso não apaga terem sido o tédio e a solidão os estopins desse encontro. Mais, até, pois o traço marcante desse fiat acompanha esse nosso leitor por toda a sua vida adulta como um mal que o tortura subterraneamente ao longo da leitura, um abismo que se abre sob seus pés no desenlace das palavras, uma dor que o isola em meio ao vozerio. Sempre o constrange a escolha entre ler e viver, pois abrir um livro é opção derradeira em busca de intensidades quando a vida não alcança. Donde se deduz que o leitor que lê por prazer sofre de um mal sem fim, um abismo interior, uma solidão irrecuperável. Coisas que o leitor profissional sequer concebe. Só por isso ainda se professa a importância da leitura nas escolas.