preciso de um dicionário etimológico

Assim como o importante é viver como quem escreve ou escrever como quem vive, acho que sempre ficará algo de fora, como um resto dessa equação. A alegria dos simulacros nunca venceu a melancolia saturnina que me devora: o super-homem é uma espécie de messias da soberania megalômana e da depressiva frustração contemporânea. Prefiro os insetos, ratos e pássaros de Kafka aos grandes predadores de Nietzsche, mas acho que mais por incapacidade do que por escolha. Talvez por isso goste da vulnerabilidade da poesia, da fragilidade de um poema. Não é uma opção, sinto como uma falta de opção. Sobrevivência, não vida, que parece sempre em outro lugar, meio como vida invivível. Daí que entre questão filosófica e pessoal, não consigo discernir muito bem onde acaba uma e começa a outra. E o ponto que me derrubou foi ver que minhas poucas escolhas conscientes e determinadas se tornaram falta de opção quando notei que o mundo social regula, exige, demanda, limita e obriga a realizar assim ou assado. Nunca houve autonomia de vida, só de pensamento – e um pouco menos de escrita. O esforço é fazer pensamento e escrita coincidir, pois no pensamento talvez encontremos nossa potência de viver. Daí que sempre tive pouco o que faxinar na vida, mas nunca me recusei às relações tópicas de que o mundo está cheio – e sempre me lamentei por isso, é disso que me lamento, é aí que tá meu lado saturnino, que sonha ter perdido algo que não sabe se já possuiu ou não. Um dia te conto meu Bildungsroman.