carência de habilidades morais

Demorei muito tempo para perceber o que é ser pobre de habilidades sociais e políticas. Não pobre de habilidades como um “analfabeto político” brechtiano, mas como um sujeito paranoico – e nada mais politico do que a paranoia. Só que parece haver dois modos de política paranoica: a que se institucionaliza e cria um mundo em confronto com inimigos, todos paranoicamente institucionalizados por comandos e finalidades, segredos e acusações, e a que vive escapando (ou tentando escapar) ao sentimento de perseguição pelas instituições em geral, crendo ser possível se livrar dessa sensação de “instituições em geral”. Diferente do sonho libertário de Foucault em 1972, no prefácio a O anti-Édipo, de Deleuze e Guattari, quando pede “Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante”, a ação política se confunde mais e mais com a ação produtivista do Capital. Por isso, retomar “categorias do Negativo” talvez seja necessário, mas não para as transgressões previstas pela própria Lei. Senão, vejamos: enquanto a primeira paranoia está metida até o pescoço no jogo moralista do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e injusto, do mocinho e do bandido, a segunda quer escapar a esse jogo pela sua desativação, achando todo jogo como um mero equívoco e imaginando ser possível viver sem jogar o jogo da sobrevivência. A primeira realistamente acredita que só dominando os códigos e regras se pode vencer (ou melhorar moralmente) o jogo, sendo que a vitória (ou melhoria) é, cá para nós, a maior das ilusões; a segunda deseja acabar com todas as ilusões morais e encarar a verdade do rei nu e do trono vazio. Só que não se acaba com as ilusões do jogo transgredindo imoralmente suas regras, pois a consequência é ser punido por elas (pecado, culpa, crime), que preveem transgressões. Acaba-se com as ilusões do jogo simplesmente deixando de jogar – por pobreza de habilidades morais e desilusões dos pares salvação/condenação. Se para uns há o medo da punição, neste último caso, o medo é o se deparar com a vida nua e crua – mas é apenas ela que nos sobra quando todo o resto desaparece: é com ela que nascemos e morremos.