a banalidade do voto

Fala-se muito do conceito de “banalidade do mal”, desenvolvido por Hannah Arendt em seu estudo-reportagem Eichmann em Jerusalém. Ela viu no burocrata nazista um exemplo do homem comum, corretamente adequado à moralidade da sua função profissional e que justamente por essa adequação foi incapaz de recusar-se a participar da escalada de barbárie. Ao contrário, tornou-se um elo fundamental, mesmo que involuntário, para que ela acontecesse. Daí que há uns anos recorreu-se muito ao conceito para se cobrar de eleitores abstinentes que comparecessem às urnas. Na verdade, a lógica deveria ser a contrária, em se tratando da política partidária brasileira. A eleição de candidatos ligados a partidos na sua totalidade duvidosos é que se tornou uma atualização com cor local do mal agindo sorrateira e cotidianamente pela adequação à moralidade pública. Votar tornou-se moralmente correto para uma má consciência que se deseja democrática, mas que é incapaz de perceber ser justamente pela participação na nossa falida democracia representativa que se referenda a manutenção de todas as formas mais banalizadas de desigualdade. Precisamos não de um novo conceito de democracia, mas de ação política que prescinda das formas mais institucionalizadas, mais partidarizadas, mais representacionais e comuns de política. Precisamos de mais ação direta, mais ação imediata, mais ação local, e menos abstração e intermediação partidária, legislativa e burocrática. Mas cada um que busque por si, do contrário caímos na mesma moralidade, no mesmo mal legislante.