aceleração, conservadorismos, suspensão

É evidente que a aceleração contemporânea da produção, circulação e consumo de informação está intimamente ligada ao incremento dos índices de depressão – e não apenas entre os mais jovens. Deprimem-se os idosos, deprimem-se os trabalhadores empregados, deprimem-se os  trabalhadores desempregados, deprimem-se os esportistas profissionais e os amadores. Em suma: acelera-se a informação, acelera-se a produtividade, acelera-se a política, acelera-se a vida. E quando a vida começa a não mais acompanhar o ritmo do mundo, o organismo é o primeiro a falhar e cobrar o preço. Daí falar-se hoje tanto em formas e métodos de desaceleração: meditação, caminhadas, ioga são alguns bastante populares. Ao mesmo tempo, junto com vários desses métodos, vem a recuperação de formas variadas de culto ao passado, culto a memórias culturais de matizes sagrados ou profanos que valorizam modos tradicionais de experiência e de vida, como contraponto ao desaparecimento de marcas de pertencimento pela aceleração. À primeira vista, parece ser muito bom que haja essas recuperações. Mas quando as transferimos para o campo político, todas essas formas de passadismos e tradicionalismos evidenciam as ascensões conservadoras que hoje percebemos. E não somente no campo da direita, com seus nacionalismos e cristianismos católico e neopentecostal. A esquerda também cultiva muitos tradicionalismos sagrados e profanos – da teologia da libertação às epistemologias do sul. Recuso-me, portanto, a chamar qualquer sujeito que professe algum tipo de fé – católica, espírita, budista, candomblecista, umbandista, protestante ou “neopagã” que seja – de progressista. Tem-se aí tão somente mais um conservador de valores tradicionais. E por isso acho que o conservadorismo hoje está em simplesmente apoiar qualquer partido político, independente do seu programa. Então só seria possível se resistir à aceleração pela depressão (orgânica) ou pela conservação de algum tipo de tradição (cultural)? Até onde sei há também experimentos que conjugam aceleração tecnológica com formas de sagrado (afrofuturismos e tecnopaganismos são dois exemplos), mas minha perspectiva é entender a aceleração também como uma forma de conservação, e o que se conserva é o crescimento da produtividade e do lucro do capital, enquanto a cultura se torna uma simples forma de conservação de alguma norma (moral, religiosa ou político-jurídica). É justamente aí que se insinua novamente para mim a suspensão abolicionista como forma de resistência. Numa época em que transgressão ajuda a vender refrigerante, calça jeans e lifestyle, desacelerar a vida é torná-la ociosa, é entender que a essência e o sentido da vida está em viver (em oposição a sobreviver) abolindo excessos e sem necessariamente produzir utilidades, é evitar cair na depressão e cultivar uma serenidade sem a ansiedade que nos mantém cativos 24/7. Para concluir: a ociosidade da língua atende pelo nome de poesia.