tradução: “linguagem, verdade e lógica” (charles bernstein)

I.

Por que roubou

aquele dinheiro? Você

sabe que agiu errado

roubando. Roubar

dinheiro é errado. Você

não deveria fazer isso,

não deveria ter feito,

não o que

fez. E você prometeu

que não faria. Correto

seria manter suas

promessas. Deveria mesmo

manter suas promessas. Quando

você diz que diz que

manterá, quando promete.

Promete? Você sabe,

tomo o que

disse como

promessa. Digo: você

prometeu, não foi?

Eles dizem que te

desculpo. Desculpe!

Não posso te desculpar

por agir errado.

Roubar dinheiro é errado.

Você agiu errado

roubando o dinheiro.

Tomei o que

você disse ser

uma promessa. Você

prometeu! Deveria

manter suas promessas.

Prometa! Por que

roubou aquela dinheiro?

II.

– Está enganado.

Atirei no cavalo acidentalmente.

– Não houve engano.

Não foi acidente.

– Quer dizer, me enganei ao atirar no cavalo

Foi um acidente

que eu tenha atirado no cavalo por engano.

Não me explico bem por atirar no cavalo.

– Querendo ou não

seu engano não é acidental.

– Atirei no cavalo errado.

Foi um engano.

Eu acidentalmente cometi um engano.

– O único engano feito

não é acidente.

– Você está enganado.

Não se engane sobre isso.

O cavalo foi morto por acidente.

Eu segurava a arma, mas não tive intenção de matá-lo.

– Então diz que foi um acidente?

Que matou o cavalo por engano?

– Admito meu engano.

Foi um acidente.

Uma nota sobre o poema: A primeira parte se relaciona com o argumento central em Linguagem, Verdade e Lógica de A. J. Ayer (1936): “A presença de um símbolo ético em uma proposição não acrescenta nada ao seu conteúdo factual. Portanto, se eu disser a alguém: ‘Você agiu erroneamente ao roubar aquele dinheiro’, não estou afirmando nada mais do que se simplesmente dissesse: ‘Você roubou aquele dinheiro.’” A primeira seção também se refere à discussão de David Ross sobre a declaração “Você deve manter suas promessas” em The Right and the Good (1930). A segunda parte do poema retoma a distinção de J. L. Austin entre acidente e erro em “A Plea for Excuses” (1956). Ayer prossegue, dizendo: “Ao acrescentar que esta ação é errada, não estou fazendo nenhuma outra declaração a respeito. Estou simplesmente demonstrando minha desaprovação moral disso… Apenas serve para mostrar que a expressão disso é acompanhada por certos sentimentos no falante… Se agora generalizo minha declaração anterior e digo: “Roubar dinheiro é errado”, produzo uma frase que não tem significado factual. É claro que não há nada dito aqui que possa ser verdadeiro ou falso… Agora podemos ver por que é impossível encontrar um critério para determinar a validade dos julgamentos éticos… E vimos que as sentenças que simplesmente expressam julgamentos morais não dizem nada. Eles são expressões puras de sentimentos e, como tais, não se enquadram na categoria de verdade e falsidade”.

Language, Truth, and Logic

I.

Why did you steal

that money? You

know you acted wrongly  

in stealing. Stealing

money is wrong. You

shouldn’t do it,

shouldn’t have done it,

not what you

did. And you promised

you wouldn’t. You

ought to keep your

promises. Really should  

keep your promises. When  

you say you

will, when you promise.

Promise? You know

I took what you

said as a

promise. I mean, you

promised, didn’t you?

They say I excuse

you. Excuse me!  

I can’t excuse you

for acting wrong.

Stealing money is wrong.

You acted wrongly

in stealing the money.

I took what

you said to be  

a promise. You

promised! You ought to  

keep your promises.

Promise! Why did you  

steal that money?

II.

You’re mistaken.

I shot the horse accidentally.

—There was no mistake.

It was no accident.

I mean I shot the horse by mistake.

It was an accident

that I shot the horse by mistake.

I did not mean to shoot the horse.  

—Mean it or not

your mistake is no accident.

It was the wrong horse that I shot.

I was mistaken.

I accidentally made a mistake.

—The only mistake you made

Is no accident.

You’re mistaken.

Make no mistake about it.

The horse was shot by accident.

I held the gun but I was not aiming for the horse.

—So you’re saying it was an accident?

That you shot the horse by mistake?

I admit to my mistake.

It was an accident.

A Note on the Poem: The first part relates to the central argument in A. J. Ayer’s Language, Truth and Logic (1936): “The presence of an ethical symbol in a proposition adds nothing to its factual content. Thus if I say to someone, ‘You acted wrongly in stealing that money,’ I am not stating anything more than if I had simply said, ‘You stole that money.’”The first section also refers to David Ross’s discussion of the statement “You ought to keep your promises” inThe Right and the Good (1930). The poem’s second part takes up J. L. Austin’s distinction between accident and mistake in “A Plea for Excuses” (1956). Ayer goes on to say: “In adding that this action is wrong I am not making any further statement about it. I am simply evincing my moral disapproval of it. . . . It merely serves to show that the expression of it is attended by certain feelings in the speaker. . . . If now I generalize my previous statement and say, ‘Stealing money is wrong,’ I produce a sentence which has no factual meaning. It is clear that there is nothing said here which can be true or false. . . . We can now see why it is impossible to find a criterion for determining the validity of ethical judgments. . . . And we have seen that sentences which simply express moral judgments do not say anything. They are pure expressions of feelings and as such do not come under the category of truth and falsehood.”