joca, gregório, camões e, ao final, nós

Texto apresentado com o título “João Carlos Teixeira Gomes: crítico” na Academia de Letras da Bahia (ALB), no dia 03 de outubro de 2018, por ocasião de Seminário dedicado a João Carlos Teixeira Gomes.

JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, CRÍTICO: GREGÓRIO, CAMÕES E, AO FINAL, NÓS

Agradeço preliminarmente à minha colega de Instituto de Letras, professora Cássia Lopes, pelo convite que sinceramente me honra. Honra pessoal e institucional. Pessoal por retornar à Academia para falar de outra importante figura das nossas letras. A primeira vez foi a convite da professora Evelina Hoisel para tratar da poesia de Ruy Espinheira Filho, que nunca foi meu professor em sala de aula, mas mestre através de livros e leituras, professor de poesia. Hoje retorno para falar do professor João Carlos Teixeira Gomes que, junto com Ruy e alguns outros ainda vivos, são figuras tutelares da atual cultura literária baiana – sem qualquer favor.

Mas há também a honra que chamo institucional, pois pertenço a uma geração que João_Carlos_Teixeira_Gomesconheceu o professor João Carlos Teixeira Gomes somente através de leituras. Eu, em particular, conheço-o unicamente pelos livros e textos que li e histórias que ouvi e ouço. Quando entrei na graduação do Instituto de Letras da UFBA, ele já não mais estava lá. Mas é justamente por essa ascendência institucional que não consigo deixar de me referir ao professor João Carlos como professor. Para todos os interessados na literatura escrita nestas terras da Bahia, nas Jogralescas e na Geração Mapa, e tendo eu sido educado também no início dos anos 90 pela memorável ATARDE CULTURAL, editada pelo poeta e jornalista Florisvaldo Mattos, desta geração, não podia deixar de conhecer e reconhecer a importância intelectual de João Carlos Teixeira Gomes.

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Mas não tendo vindo aqui dar qualquer tipo de depoimento, cujo dia será amanhã, inicio apropriando-me de forma livre, e com a devida licença, do nome do projeto das professoras Evelina Hoisel, Antonia Herrera e Ligia Telles, e afirmo que João Carlos Teixeira Gomes é – como o vejo – um escritor efetivamente múltiplo, sublinhando na expressão o termo escritor. Para mim, sempre foi como tal que o professor João Carlos se caracterizou. Seja pela famosa “pena de aço”, pela máquina de escrever, pela caneta ou lápis ou ainda – sabe-se lá, mas julgo que inevitavelmente – pelo teclado do computador, sempre me pareceu que a marca pública da sua imagem é a de escritor, no sentido lato que esta palavra possui. É o ato de escrever e publicar como modo de discussão da esfera política, social e cultural o que dá ao professor João Carlos sua personalidade autoral. E para mim, que não conheço o homem, o escritor João Carlos Teixeira Gomes sempre foi aquele caracterizado por uma escrita fundamentalmente crítica. Não sei se é válido, não sei se é correto, mas entre o poeta, o jornalista, o professor, o prosador, o crítico literário, o biógrafo, o memorialista e sei lá quantas outras facetas de alguém dedicado sobejamente a escrever, o olhar crítico, crítico e arguto, sempre me pareceu sua face mais soberana, mais forte, atuante e autêntica. Seu estilo mais pessoal e ao mesmo tempo  público.

E há um ponto que atravessa muito dessa mirada crítica do professor João Carlos e que me interessa tratar aqui: a história. Aquela disciplina que talvez seja a base das ciências humanas, dos saberes do homem sobre o homem, fundamental para a reflexão, conhecimento e intervenção na vida coletiva. Seja o passado literário clássico de Gregório de Matos, Luís de Camões e Manuel Bernardes, o passado literário mais recente de Raul Pompéia, Florbela Espanca e Alfonsina Storni, as matrizes ibéricas de cancioneiros populares nordestinos ou ainda o modernismo baiano, a geração da revista Arco e Flexa – todos esses tempos históricos convergem incontornavelmente para o tempo crítico do próprio João Carlos Teixeira Gomes, nosso tempo também, de lutas políticas, culturais e literárias. Não vejo outro modo, portanto, de entender o que há de crítico na escrita de João Carlos Teixeira Gomes senão pela sua fortíssima consciência histórica.

Por outro lado, e ao mesmo tempo, contrabalança essa sua faceta de critico literário de olhar fixo sobre a matéria histórica, sua face de escritor, mais precisamente, quero destacar hoje, a face de poeta. É como se a investigação histórico-crítica de poetas do quilate de Gregório, Camões e Sá de Miranda fosse também um caminho de estudo da própria tradição poética da língua portuguesa – a sua tradição eletiva. Um diálogo um tanto ao modo de outro poeta e crítico, T. S. Eliot, em seu famoso ensaio “Tradição e talento individual”. Esses estudos e medições de força com tamanhos peso-pesados da nossa língua poética nunca pareceram impor qualquer receio ou embaraço ao professor João Carlos Teixeira Gomes. Ao contrário, quando leio seus estudos, parece que tais poetas do passado fizeram-no preparar-se de modo fino e sistemático para o estudo tanto das Letras literárias quanto das históricas, e – aparentemente – sempre tiveram como destino o seu próprio lugar de poeta-crítico – outrora devedor e hoje credor dessa longa memória e tradição. Penso que é assim que se sustenta e se leva adiante uma tradição literária. E é por isso que estamos hoje aqui.

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Detenho-me brevemente em seu livro sobre Gregório, intitulado Gregório de Matos, oGregorio boca de brasa: um estudo de plágio e criação intertextual, editado pela Vozes no ano de 1985 e clamando cada vez mais por uma reedição. Para mim, um livro que une a mais erudita crítica historiográfica à sensibilidade pelas palavras de um poeta. Nele, o professor João Carlos demonstra toda a sua amplitude crítica ao ir à tradição medieval e renascentista para entender a poesia satírica de Gregório de Mattos e desmontar as acusações anacrônicas de plagiário contra o poeta da Cidade da Bahia dos seiscentos. Toda a longa pesquisa que é feita da poética medieval e clássica ibérica, rastreando a sátira peninsular em cantigas medievais, preceptivas e cancioneiros diversos, poetas variados, bem como o procedimento da emulação, fruto da transformação da mímesis aristotélica em imitatio – tudo isso é fartamente argumentado, exemplificado e atualizado didática e criticamente para o leitor contemporâneo.

Mas o professor João Carlos jamais deixa de lado o poeta que é, usando-o justamente para questionar a incapacidade dos acusadores de plágio em entender as semelhanças e diferenças, os pontos de contato e afastamento – em jogo nesse caso – entre a história e a poesia. Se os poemas de Gregório podem nos fornecer fartas informações históricas sobre a Salvador do século XVII, sobre a retórica e o léxico então conhecido e usado, sobre figuras de projeção e anônimos na sociedade, sobre as transformações dos valores aristocráticos, comerciais, religiosos e plebeus que corriam entre os vários estamentos, também estes mesmos poemas são muito mais do que documentos históricos para reconstrução da época. São também, principalmente e sobretudo, isso: poemas – que no caso dos satíricos gregorianos foram criados para criticar com veemência dos desvios pelo ridendo castigat mores, mas que também trazem a fagulha da diferença do barroco baiano e brasileiro em relação intertextual com a sátira ibérica. Gregório é no âmbito da poesia brasileira de alguma forma o que o Aleijadinho é no âmbito da escultura, e justamente por isso o estudo do professor João Carlos ganhou honrosos e tão diversificados elogios e continuações – tanto da parte de críticos como Segismundo Spina e Haroldo de Campos, que o reconhecem com veemência, como de João Adolfo Hansen.

Para mim, em particular, o livro de Adolfo Hansen, A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, publicado quatro anos depois do livro de Teixeira Gomes, não me pareceria possível sem o levantamento e mapeamento das fontes e recepções feitos anteriormente por nosso poeta-crítico e professor, por mais que Adolfo Hansen diga ser outra sua abordagem e propósito (ele, que também se vale da biografia de Gregório escrita por outro eminente poeta e historiador da geração Mapa, Fernando da Rocha Peres). Mas o que para mim faz diferir o livro do professor João Carlos do livro de Adolfo Hansen é a argucia literária do primeiro, que não disseca um corpo morto, muito pelo contrário, faz reviver e valida a força crítica da poesia do barroco baiano, localizando-a historicamente, mas conseguindo, ao mesmo tempo, atualizá-la para nossos dias.

A lição preliminar, portanto, que tiro desse magnífico estudo do professor João Carlos Teixeira Gomes é de que a crítica e a história literária devem sempre ter a rédea curta da sensibilidade poética. Óbvio, eu sei, mas raramente encontrável em diversos e cultuados estudiosos das letras, o que não poucas vezes só tende a matar a própria literatura em sua mais íntima e contestadora potência.

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Uso o qualificativo “contestadora” porque o livro sobre o qual mais me debruço docamões professor João Carlos, por vício profissional e paixão literária, é Camões, contestador e outros ensaios. Tendo eu lido sua biografia de Glauber Rocha, sua poesia e estudo sobre Gregório de Matos, e mais tarde tendo me tornado professor de Literatura Portuguesa, eu já me deparara em bibliotecas com tal volume, mas nunca lido o seu Camões, contestador, de 1979, editado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. No dia em que o fiz, o resultado da leitura é que hoje repetidamente utilizo seus capítulos dedicados ao bardo português para falar de Os Lusíadas em sala de aula.

Livro anterior em seis anos ao Boca de Brasa, mas que em nada fica a dever a este. Eu diria mesmo o contrário, já que em Camões, contestador estão todos os elementos que depois farão justa fama ao professor João Carlos no trato de Gregório de Matos, bem como uma demonstração de interesses e investigação crítica ainda mais ampla. Em Camões, contestador, há o embrião de Boca de brasa, por exemplo, no capítulo “Apontamentos sobre a evolução da literatura baiana”, no qual o crítico busca entender se há ou não traços que particularizem algo como uma “literatura baiana”, desde Gregório de Matos, Antonio Vieira e Botelho de Oliveira, passando pelas Academias dos Esquecidos e dos Renascidos, por Castro Alves, Xavier Marques e Jorge Amado, até chegar à inteligência baiana que – nos anos 1970 de um Brasil em regime de exceção – tentava fazer jus à história crítica ali desenvolvida. E eu afirmaria mesmo – a despeito da modéstia do autor em dizer ao final tratar-se de uma “resenha” – que o artigo é muito precisamente um esforço em dar um tônus histórico-crítico à vida e cultura literária e intelectual baiana, por mais que seu autor reclame da “grave estagnação” que dizia haver nos anos 1970, quando o livro foi publicado. Entendo o que chama de estagnação, dada a situação política da época, mas afirmo que este livro simplesmente contradiz qualquer estagnação intelectual. E o faz de maneira inteligentíssima ao escolher para abrir sua série de artigos, bem como para intitular toda a coletânea, o nome de um poeta do calibre de Camões – aparentemente tão distante de uma crítica voltada para a vida literária, cultural e política da Bahia e do Brasil dos anos 1970. Mas só aparentemente.

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Em seus capítulos voltados para Camões, o professor João Carlos sublinha algumas faces do Bardo português: o homem, o poeta amoroso em viva tensão com o poeta épico e o poeta crítico e contestador, todos presentes e atuantes em Os Lusíadas. Ao trazer questões sobre a vida do homem e suas experiências amorosas, o professor João Carlos levanta as hipóteses de José Hermano Saraiva, autor de uma polêmica biografia de Camões, A vida ignorada de Camões, em que trata das marcas biográficas de possíveis amores vividos pelo poeta na sua obra lírica. José Hermano lançou mão, em seus argumentos e “provas”, de um determinismo biográfico que submeteu a criação poética de Camões a vivências amorosas muito específicas e leu inúmeros dos mais emblemáticos versos e poemas da lírica camoniana a partir de minuciosas informações das possíveis amantes do poeta, tudo submetido a tramas de forte aparência rocambolesca sobre “infortúnios do poeta” – que sempre transporia tudo diretamente para seus versos.

A análise do professor João Carlos é didática e exemplar da sua consciência poética e crítica. De um lado, em nome da poesia, ele sabe que todo poema é uma forma de tratamento verbal e discursiva de matéria vivida, mesmo que de forma involuntária, em todo e qualquer poeta, sobretudo num poeta cuja poesia lírica é reconhecidamente autobiográfica. Por isso, o professor João Carlos medita longamente sobre algumas hipóteses do biógrafo, mas sempre com o bom senso crítico de pesar os excessos quanto à leitura da poesia camoniana, como quando afirma:

É óbvio, porém, que a poesia não tem compromissos com a verdade, e Camões pode ao menos ter amplificado exageradamente, com os instrumentos da sua sensibilidade e da sua afetividade tão aguçadas, infortúnios que, para outros menos dotados ou imaginosos, teriam ressonância menor

Seja como for, convém sempre não esquecer quantas vezes, nas Rimas ou n’Os Lusíadas, o poeta exprime sua fidelidade ao real, ao vivido e experimentado, o que, nele, muito mais do que o sentimento empírico do mundo, típico do homem do Renascimento, parece ter sido incontornável inclinação pessoal, de sensibilidade e de temperamento (1979, p. 16).

Tal passagem revela um analista cuidadoso aos cruzamentos entre poética e história, poesia e vida – mesmo problema em certa medida com o qual se deparará posteriormente com Gregório de Matos. E será esse o tipo de olhar que levará adiante ao longo dos demais capítulos a tratar de Os Lusíadas. Uma permanente e produtiva tensão entre o discurso épico, naquilo que ele sempre traz de coletivo, político, nacionalista e guerreiro, e o discurso lírico, subjetivo, pessoal e intransferível. Isso é analisado pelo professor João Carlos – tanto no episódio de Inês de Castro quanto do gigante Adamastor, dois personagens feridos de amor e dos mais emblemáticos do épico camoniano – com intuição crítica até mesmo inédita, diante da vasta e fortuna crítica da camonologia, com a qual debate.

Sobre o episódio de Inês de Castro, por exemplo, a tese de leitura do professor João Carlos é de que

o aproveitamento do tema de Inês de Castro em Os Lusíadas revela o cuidado com que Camões selecionava o material com o qual trabalhava, sobretudo em se tratando de material de amplas potencialidades poéticas. A tragédia de Inês poderia perfeitamente ser dispensada num poema que, afinal, celebrava antes de tudo a vocação marítima de um povo. Mas o tema se impôs a Camões decerto pela aura trágica de que se reveste a experiência amorosa, bem de acordo com a sua própria visão de mundo desse sentimento. Cabe, aqui, indagar o seguinte: pode mais a poesia do que a história? (1979, 29; grifo do original).

 

Dessa pergunta, o historiador crítico da poesia que é o professor João Carlos – depois de destrinchar questões políticas sobre a suposta condição de Inês como espiã de Castela – conclui como válido o esforço de Camões em tirar a culpa de Afonso IV por ter mandado matar Inês. Tal enredo – independentemente das suas razões históricas – foi o que possibilitou ao poeta justamente fazer valer a força da poesia, imortalizando a “mísera e mesquinha / Que depois de ser morta foi Rainha”. Nas palavras do professor João Carlos: “a constatação que fica [do uso do episódio amoroso de Inês de Castro em um poema épico] é que de nada pode a suposta verdade histórica quando contra ela se coloca a força mítica da poesia” (1979, 30).

Não é esta conclusão, com a qual concordo, que pessoalmente acho brilhante, mas toda aLUSIADAS tese desenvolvida, de que o lirismo amoroso e trágico de Camões todo o tempo ao longo de Os Lusíadas como que interrompe e contesta o discurso triunfalista do próprio épico, atuando (o lirismo amoroso e trágico) como instância crítica àquilo que o próprio poeta português diz louvar: a expansão marítima e imperial portuguesa. Cabe sublinhar também que não havia outra maneira de Camões tecer qualquer crítica, pois aquela era uma monarquia absoluta e não uma moderna república democrática, uma monarquia organizada em torno de estamentos sociais (e não classes) e começando a descobrir lentamente os prazeres e perigos do que viria a ser chamado posteriormente de capitalismo. É isso o que a leitura de João Carlos Teixeira Gomes sobre Camões ensina com absoluta pertinência: que o desconcerto do mundo do olhar camoniano também ajudou o poeta português a criar uma poesia moderna e crítica avant la lettre, moderna porque crítica, justamente naquilo que faz, da poesia moderna, poesia: uma sensibilidade contestatória.

É o que percebo ser a tônica do quarto capítulo – intitulado “Camões, contestador” – para o qual todos os argumentos convergem na construção de um Camões atento tanto à história quanto à poesia, tanto aos encaminhamentos e impasses daquela história que contava quanto às potências contestatórias e críticas da poesia que cantava.

Aí, o professor João Carlos lança mão de dados e informações históricas, ao mesmo tempo em que parte para um maior corpo a corpo com os versos mais polêmicos do épico camoniano: desde a incisiva fala do Velho do Restelo (“Ó glória de mandar, ó vã cobiça / desta vaidade a que chamamos fama”) até o encerramento do poema, passando por uma seleção de versos de poetas contemporâneos de Camões, que demonstram uma atmosfera histórica reveladora. Cito os versos de Sá de Miranda: “Perde a verdade a valia / Anda corrida a razão, / Prevalece a hipocrisia, / Cresce o dano e não se cura, / Todos gemem e nenhum fala, / Pelos cantos se murmura”; e os versos de Antonio Ferreira: “A medo vivo, a medo escrevo e falo, / Hei medo do que falo só comigo, / Mas inda a medo cuido, a medo calo”. Tais versos revelam o que Camões tanto contesta, nas palavras do professor João Carlos: “é a velha luta entre a busca de liberdade de expressão e os bloqueios do obscurantismo censorial que transparecem nos exemplos acima, convindo lembrar que a Inquisição era ainda um fator de estrangulamento das ideias e da expressão artística”. (1979, 66). Ou seja, se há algo que se pode dizer do perfil camoniano desenhado pelo professor João Carlos é que o poeta português buscou a todo momento ser justo, tanto com a história quanto com a poesia, tanto com os governantes quanto com o povo, tanto com os protocolos de construção de um épico quanto com seu impulso lírico subjetivo, tanto com a técnica artística quanto com o engenho individual.

Não posso – portanto – deixar de ver nesse perfil do poeta Luís Vaz de Camões pela argúcia crítica e pela sensibilidade poética do professor João Carlos algo a que já me referi: que escrever sobre Camões no Brasil de 1979 era algo só aparentemente distante e diverso do contexto crítico de então. Se havia algo da história que parecia se repetir aqui – naquele momento de publicação desse livro – eram os versos camonianos a abrir o epílogo de Os Lusíadas:

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza. (X, 145)

 

Onde quis chegar com tudo isso? Não sei se ficou claro, mas agora enuncio francamente o que me moveu como hipótese desde o início: ao falar da Censura Inquisitorial da Contrarreforma Católica do século XVI, o crítico João Carlos Teixeira Gomes está todo o tempo a falar da Censura da Ditadura Civil-Militar Brasileira, ao falar sobre o poeta Camões em contexto de flagrantes transformações histórico-políticas, o crítico João Carlos Teixeira Gomes está todo o tempo a falar sobre a poesia do seu próprio tempo em contexto de exceção autoritária, ao escolher falar de um “Camões, contestador”, o crítico João Carlos Teixeira Gomes todo o tempo a falar de alguma forma também sobre si mesmo, sobre sua tarefa crítica como poeta contestador e sua sensibilidade poética como crítico literário e jornalista político[2]. Tarefa e sensibilidade que precisamos tomar em nossas mãos[3], cada vez mais pelos exemplos de “Camões, contestador” e de João Carlos Teixeira Gomes, “pena de aço”.

NOTAS

[2] Após a leitura deste texto, o professor e crítico Nelson Cerqueira, que estava presente ao evento, confidenciou-me que, durante a Ditadura, a redação do Jornal da Bahia, cujo editor era João Carlos Teixeira Gomes e onde ele, Cerqueira, também trabalhava, esteve sob censura física, isto é, com a presença in loco de um censor oficial. Segundo Cerqueira, a praxe era a do censor ler as matérias preparadas, exigindo que se cortasse trechos inteiros de blocos já diagramados. O que fazia o então editor João Carlos Teixeira Gomes? Mandava substituir os trechos cortados por versos de Os Lusíadas, gesto que também se repetiu com o Estadão, de São Paulo, mas que não rendeu – no jornal paulista – um livro como Camões contestador.

[3] Este texto foi lido quatro dias antes das Eleições de Outubro de 2018, as mais radicais do período de redemocratização, a primeira em que as Redes Sociais tiveram uma função preponderante no debate público de ideias, disseminação de notícias e na amplificação dos discursos de medo vindos de todos os lados, mas que tinham no candidato Jair Bolsonaro o que assumidamente extrapolava os limites da democracia, ao repetida e sistematicamente defender a ditadura civil-militar e fazer o elogio de um notório e assumido torturador como o Coronel do Exército Brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra.