ética na política

A recente democracia brasileira só teve uma outra chance tão grande para se reinventar e se aprofundar desde 1989. Foi na hora da eleição de Lula. Mas, naquele momento já perdido na história, ela foi jogada na lata do lixo em nome de uma lógica de governabilidade igual às anteriores. Como se políticas sociais, públicas e culturais só pudessem funcionar se postas em prática agindo pelos mesmos princípios que regem a duvidosa democracia brasileira. Sujou-se muito as mãos, lambujou-se com o que não presta – mesmo que em nome de avanços, que se mostram voláteis sem um fundamento verdadeiramente democrático. Então, com a ascensão da extrema-direita ao poder no Brasil, é hora da esquerda-digna-desse-nome se repensar, se reavaliar, se reinventar e investir de fato em estratégias de democratização do seu próprio discurso, caso contrário naufragará como vimos nesta eleição. Proponho por onde começar: a retomada da “ética na política”. Aquele encardido slogan que fez história no PT e que foi completamente esquecido a partir de 2003. A retomada desse slogan, em ato e discurso, significa não jogar com as mesmas armas e no mesmo campo do poder como ele se desenhou ao longo do século XXI, não aprofundar a decadência da política com seus memes, que mais se assemelham a fogos de artifício carentes de verdade, com gritos de guerra que incentivam a militância mas não tocam na verdade da vida das pessoas reais, abandonar a espetacularização midiática que, como Hannah Arendt escreveu, só alimenta o nascimento dos totalitarismos. E o que temos aí, desde os últimos dez anos em crescente onda, é um novo totalitarismo (cf. Noam Chomsky) que tomou conta subliminarmente no nosso cotidiano, dos nossos atos, dos nossos desejos, dos nossos discursos, sufocando qualquer possível ética que fundamente a esfera política – e que um dia a esquerda ocupou, mas esqueceu, medusada pelo poder e pelo mercado. Não adianta fazer política dentro das mídias sociais – que funcionam pela lógica do poder soberano do Capital, com sua oferta-e-consumo de imagens. Não se faz política democrática com imagens precificadas e memes. O abstrato mercado-em-rede produzido pela tecnologia e suas lógica de informação-como-produto não é a sociedade democrática de que precisamos. Ou a esquerda aprende isso, ou nada mudará – e corre-se o risco desse novo totalitarismo insidioso só crescer mais e engolir as nossas próprias vidas, tornando-nos ainda mais descartáveis. A resistência política a isso só tem um nome possível: ética. O resto é derrotismo ou triunfalismo sem verdadeiras mudanças democráticas.