a maquinação dos desastres

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil
CDA, “Confidência do itabirano”

Escrevi isso quando do incêndio do Museu Nacional. Agora vem uma nova catástrofe no Brasil, muito semelhante a outra ainda recente. Parei brevemente para levantar os desastres desde 2013, mas a lista cresceu para trás e eis que percebi um traço de compulsão à repetição em nossa cultura pós-ditadura: o desastre. E em vários níveis sociais.

Inaugurada em 1987 pela tragédia do Césio em Goiânia, chamado de “acidente”, minha lista (sem qualquer pretensão a totalidade) me deu a perceber que é essa virtual onipresença do desastre na nossa sociedade pós-redemocratização o que leva pessoas a se iludirem com uma volta à ditadura. Como se não houvesse catástrofes antes. De cabeça, lembro das mortes na construção da Ponte Rio-Niterói e da Hidrelétrica de Itaipu. Para não falarmos dos crimes políticos.

O ponto é que a Nova República nasceu sob o influxo da ditadura (a Odebrecht, por exemplo, tornou-se uma grande empresa junto aos militares, e uma multinacional brasileira com os governos civis) e ainda não o abandonou. Ao contrário, o conluio político-econômico entre setor privado e gangues partidárias nos trouxe a este estado de coisas, e a relação promíscua que as inúmeras mineradoras têm com todos osImagem relacionada governos e políticos do Estado de Minas é somente o exemplo mais recente. A Bahia e suas duas empreiteiras não fica atrás, o Rio e a Petrobrás, São Paulo e a FIESP, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso com o agronegócio. São infinitas linhas de corrupção tornada cultura política e administrativa no país. Não se governa de outro modo. E não se vive de outra maneira.

Estamos social, cultural, profissional e afetivamente presos a essa lógica. Basta ler os simbolismos ligados à mineração na poesia do nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, que recebeu recente leitura de José Miguel Wisnik. Da mineração à maquinação do mundo, chegamos ao atual estado de coisas compulsivo em relação a desastres brasileiros: um novo modo de ser tropicaos. Ou nem tão novo.

Agora, uma breve lista do que faz a cultura brasileira do século XXI.

Massacres no espaço público: Eldorado dos Carajás, Vigário Geral, Candelária, Corumbiara, Cabula, Guaíra.

Massacres em presídios: Carandiru em SP, Alcaçuz em Natal, Pedrinhas no Maranhão, / Urso Branco em Porto Velho, Monte Cristo em Roraima

Desastres aéreos: voo 402 da TAM, voo Gol na Floresta Amazônica, pouso da TAM em Congonhas, voo 447 da Air France perto de Fernando de Noronha.

Desabamentos de prédios: Palace II e três prédios no centro do RJ, o edifício Wilton Paes de Almeida em SP, ocupado pelo MSLM.

Incêndios: boate Kiss, Museu Nacional e Parques Florestais anualmente.

Naufrágios: Bateau Mouche IV, Catamarã de Mar Grande, inúmeros no Pará e Amazonas

Assassinatos (ou tentativas) de políticos: Marielle Franco, Toninho do PT, Celso Daniel, facada em Bolsonaro (somente os de repercussão nacional)

Salve geral: São Paulo e Ceará

Queda de barragens: Mariana, Brumadinho

Enchentes anuais, secas cíclicas, desmatamentos madeireiros e agropecuários.