ao largo do largo

Crescido entre a Salvador praieira da orla marítima, da Barra a Itapuã, e a Salvador nuclear da Liberdade, de religiosidade e festa popular, hoje prefiro uma vida anônima, silenciosa e nua, quase clandestina, sem o espetáculo turístico das manifestações marketeiro-culturais da economia política. Não nasci como quem estreia, segundo clichê deplorável, nem me interessa ser escada para os outros estrearem em busca de fama e grana. É algo que devo à baixa Joana Angélica, à rua Chile e à Carlos Gomes da segunda metade dos anos 1980, com seu realismo desconfiado com as baianidades que fazem essa história comercial de praia-e-festa.

É de onde percebo que as conhecidas festas de largo, hoje, parecem passar ao largo do largo para se tornarem megaempreendimentos comerciais para turistas, para a classe média soteropolitana sentir-se mais popular, para artistas em geral se autopromoverem e produtores culturais lucrarem. É a famosa economia criativa das secretarias de cultura, dos departamentos de marketing e das agências publicitárias (alguém falou Nizan Guanaes?).

A festa de Iemanjá se tornou o exemplo mais visível dessa apropriação hipster da tradição popular. Outro clichê publicitário-cultural – o do Rio Vermelho como bairro boêmio, frequentado por artistas, produtores culturais e descolados em geral – tinha na festa de Iemanjá um momento em que a sobrevivente colônia local de pescadores se reunia com filhas e filhos de santo e faziam seu culto com toda a devoção. Mas também, como sói acontecer em cultos do tipo, depois todos festejavam, incluindo “devotos não praticantes”. Com o crescimento da cidade nas ultimas três décadas e sua publicização cultural pelo carlismo, a festa cresceu em popularidade, com suas barracas multicoloridas atraindo sambões e pagodes (tudo meio que favelizado, é verdade, mas em uma cidade tão pobre, a festa não tinha como ser diferente) e foi virando parte do “calendário turístico de festas” da “exótica cidade do axé”.

O que temos hoje, no século XXI? Uma festa higienizada com barreiras físicas, barreiras policiais, patrocinadores exclusivos, barracas padronizadas, festas privadas e aquilo que há 100 anos Oswald de Andrade chamou “macumba pra turista”. A colônia de pescadores e o povo de Candomblé continua seu culto como sempre, mas espremido pelo gigantismo histérico da cidade no verão e pelo discurso fake de transformar a festa em algo rentável.

Da rua professora Natália Vinhais, onde morei por 14 anos, no encontro entre Rio Vermelho, Vale das Pedrinhas e Nordeste de Amaralina, sempre vi, no dois de fevereiro, muitos grupos de moradores do Vale e do Nordeste dirigindo-se ao Largo da Mariquita desde cedo, tocando, bebendo e só retornando para casa à noite, para no dia seguinte voltarem ao batente. Hoje, isso se reduziu a pouquíssimos grupos acompanhando carrinhos de café hiper-sonorizados. Em compensação, crescem as festas fechadas, pagas ou não, tocadas por empresários-produtores e artistas da autopromoção.

Das “coisas da Bahia”, a cultura turístico-criativa é onde direita e esquerda mais se confundem: uma entra com o dinheiro, a outra, com agitação. Já a população pobre, negra e batalhadora da cidade, em ambos os casos, sempre foi a última a ganhar. Apesar de ser a primeira a fazer. No caso da festa de Iemanjá, parece que nem como última ganha mais.

Sei, no entanto, que a cultura popular e espontânea ainda resiste, como sempre às margens da festa oficial. Teve de sair do largo, agora vazio de ambulantes. Mas não é justamente fora das cordas e camarotes, no anonimato da pipoca e da vida, que está o melhor do carnaval? Homenageia-se Iemanjá em qualquer beco que dê numa praia e depois se vai para o chaveiro que abriu um guarda-sol, colocou uns bancos e pôs umas cervejas à venda.