o ruidoso animal humano

No Brasil, diante da recente ascensão de uma direita reacionária, os intelectuais de esquerda, com seu anti-intelectualismo característico (ressalvadas as exceções de praxe), escolheram detratar figuras toscas e estúpidas como Olavo de Carvalho, mas não leem, ignoram e/ou silenciam um possível debate com uma tradição conservadora mais culta e atualizada.

Tenho lido John Gray [cito a Wikipédia em inglês porque a em português não cita (levianamente?) sua virada no século XXI a crítico dos (neo)liberais como fomentadores de torturas pós-11/09 e da crise ecológica] e eis que me deparo com uma descrição de época que para mim ilumina um pouco a origem da imbecil mistura do nazismo com o comunismo, não sendo esse o objetivo dele. No livro O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos (2019; fragilmente resenhado por gente como Pondé), Gray a certa altura do segundo capítulo, ao pretender comparar a concepção freudiana com a junguiana de mito, faz uma descrição do ambiente político-cultural no qual criador da noção de “inconsciente coletivo” a desenvolveu junto com sua teoria dos arquétipos.

Para situar essa atmosfera, Gray comenta Ernst Haeckel, líder positivista da Liga Monista, uma sociedade que pretendia desenvolver a união entre materialismo científico e tradição religiosa não-cristã através de pressupostos darwinianos associados ao mito da unidade entre poder político e religioso (o livro Mitra-Varuna, de Georges Dumézil, aborda o mito indo-europeu de uma soberania simultaneamente política e religiosa). Uma figura fascista alimentada por esse pensamento é a do italiano Julius Evola (cito o verbete em inglês porque o em português está sintomaticamente incompleto, como no caso do verbete para John Gray).

Da Liga Monista, sairiam tanto “personalidades de destaque do Partido Comunista Alemão, quanto nazistas”, e Haeckel – que pertencia à Sociedade Thule junto com a figura de Rudolf Hess, posteriormente vice de Hitler – seria “festejado como herói intelectual” da RDA. É impressionante encontrar sites que por essas associações relacionam a ecologia (termo criado pelo biólogo Haeckel) ao nazismo. Ou seja, ciência ecológica, comunismo e nazismo são relacionados de maneira absolutamente linear, chapada e ignorante dos discursos e práticas efetivas de cada um ao longo do século XX. Encontrei inclusive um site associando Haeckel, holocausto judeu, comunismo soviético e política pró-aborto do partido democrata norte-americano desde uma perspectiva criacionista.

A descrição que Gray faz desse ambiente que forma Jung, no entanto, objetiva dar somente uma ideia do que fez fermentar a noção de “inconsciente coletivo” associada aos arquétipos, mas em momento algum ele afirma uma matriz comum entre nazismo e comunismo. Isso só pôde vir do que Umberto Eco chamou de “idiota da aldeia”, resultado da “democratização das vozes” na internet (como se ruído e falatório fossem iguais a democracia).

*

O que Gray não diz, mas digo eu – desdobrando um pouco tudo isso -, é o quanto todas essas correntes – opostas e contraditórias – se ligam ao mito moderno do progresso moral da humanidade e é precisamente isso que fundamenta muito do que há no pensamento conservador que não seja reacionário. As ideias de Gray (pelo menos nesse livro e em Cachorros de palha) são críticas ferozes do antropocentrismo presente tanto no humanismo quanto no liberalismo (ironizado fortemente em algumas passagens de O silêncio…) e no comunismo (velho alvo do inglês) e parecem ter migrado para uma defesa científica da ecologia que busca livrar o ser humano de toda forma de fé em ideias salvacionistas (“So conventional green nostrums are not all that different from Bush’s business-as-usual policies.”). Para ele, essas ideias só teriam causado os intermináveis massacres cotidianos e/ou genocidas ao longo da história. Se alguns acham que conservar valores passados (cristãos, humanistas e/ou nacionalistas) é uma forma de evitar cair em fantasias genocidas, Gray não o faz de modo algum nesses livros. Ele parece estar mais interessado em frear a lógica desenvolvimentista que nos conduz insanamente à mais atual catástrofe, agora em proporções planetárias, e em “conservar”, digamos assim, o que há de animal na espécie humana – seu elogio de Freud diz respeito a uma gestão ética da pulsão de morte.

Como tudo isso bate em um brasileiro que não cresceu nem viveu na cultura liberal britânico-europeia – de um lado conservadora, de outro lado social-democrata – e que conseguiu nos últimos 50 anos níveis inimagináveis de justiça social, às custas de entregar a liberdade humana às instituições financeiras transnacionais responsáveis pelo crash de 2008, pela exploração pós-imperialista da periferia mundial e por índices fabulosos de depressão e suicídio?

Não é mais o pensamento desenvolvimentista (consumo, emprego e índices de crescimento) que pode contribuir para diminuir a desigualdade no mundo. Nos anos de fartura do norte neoliberal, a desigualdade não diminuiu e o crescimento só contribuiu para a crise ambiental. Hoje apenas uma profunda reforma tributária, com taxação de grandes fortunas, lucros e dividendos de acionistas, heranças e grandes fortunas, renda básica universal e o incremento da autonomia municipal podem nos ajudar a escapar da biotecnodemocracia que vem por aí – novo avatar do pensamento desenvolvimentista.

A crítica do mito do progresso e do antropocentrismo – como Gray faz – nos ajuda a pensarmos o gigantesco resíduo tóxico das formações políticas da modernidade como insuficientes para dar conta de muitos dos atuais desafios que temos. Se dependemos dos políticos para as mudanças de que precisamos, é fundamental antes de tudo pensarmos alternativas políticas aos limites reais que se colocam diante dos humanos, pensarmos sem o fetiche do poder e do discurso messiânico que domina a lógica partidária e nos trouxe até este fundo do poço. É o gigantesco ruído deste resíduo fetichista e messiânico que faz o nazismo parecer de esquerda e o comunismo, de direita. Não tenho qualquer dúvida.